A forma como envelhecemos depende da nossa personalidade?

Engana-se quem pensa que só a genética determina nossa qualidade de vida na velhice: o bem-estar depende muito da maneira como encaramos a vida e o mundo

por Alexandre Kalache



São vários os fatores que influenciam a maneira como envelhecemos ao longo do nosso curso de vida. Entre eles, há os determinantes pessoais, como a genética e a personalidade, que influenciam a saúde e o bem-estar ao longo da nossa vida e, consequentemente, também na velhice.

 

O peso da genética

 

Os fatores hereditários (basicamente, nossa genética), de acordo com inúmeros estudos, são responsáveis por não mais do que 25% da nossa chance de sermos longevos, saudáveis e independentes. Quando eu era estudante de medicina, nós até brincávamos: “quer viver muito e bem? Escolha cuidadosamente seus pais”. Mas não é exatamente assim.

 

Há muitas outras características “pessoais” que determinam quanto tempo e como viveremos. Nada de atitudes fatalistas, como dizer que não há o que fazer contra o colesterol alto por ter um histórico familiar. Pelo contrário: quem sabe ter herdado uma predisposição genética a determinadas doenças preveníveis deve tomar ainda mais cuidado para superá-las por meio da adoção de um estilo de vida saudável. Claro que muito depende de hábitos, mas também de onde se vive, de quais são as condições sociais e financeiras e quais serviços públicos estão disponíveis.



Os fatores hereditários são responsáveis por não mais do que 25% da nossa chance de sermos longevos

O fator personalidade

 

Um dos fatores para o “bem envelhecer” é a nossa personalidade. Você, certamente, já conheceu pessoas felizes e consideradas bem-sucedidas mesmo vivendo com dinheiro contado ou problemas graves de saúde. Pessoas que superam dificuldades e que conseguem viver vidas plenas mesmo diante de tais barreiras. O que explicaria os motivos pelos quais essas pessoas conseguem se superar, e mesmo na velhice, continuem enfrentando, com muita garra, perdas que o envelhecimento pode impor?

 

Alguns aspectos apontados por estudos em todo o mundo ajudam a responder essa questão:

Propósito de vida

Pesquisadores identificaram seis aspectos importantes para ter uma vida mais longa e saudável: autonomia, domínio do ambiente (habilidade em lidar positivamente com o mundo que nos cerca), crescimento pessoal, relações positivas com os outros, propósito de vida e autoaceitação.

Bem-estar psicológico

Outro conceito de bem-estar psicológico, que também explica o que é necessário para estar bem, é o modelo PERMA. Ele foi desenvolvido pelo psicólogo norte-americano, Martin Seligman, e é baseado em cinco fundamentos para a felicidade e a resiliência: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido de vida (propósito) e realizações (o acrônimo PERMA é formado pelo significado dessas cinco palavras em inglês). Estudos demonstram que é possível, em qualquer idade, desenvolver ou aprender essas qualidades.

Meditação

Atualmente, também se fala muito no conceito de mindfulness, que tem a ver com a maior consciência de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Com base nesse conceito, foram derivadas diversas técnicas para reduzir o estresse e os pensamentos negativos. Com um pouco de treino, podemos diminuir o estresse que nos prejudica e aumentar a felicidade e o bem-estar.

Otimismo

Há, sem dúvidas, pessoas naturalmente otimistas. Mas, o otimismo também pode ser aprendido. Um menor risco de doenças crônicas entre pessoas otimistas já foi amplamente comprovado — em parte, porque essas pessoas são mais propensas a adotar estilos de vida mais saudáveis e a lidar melhor com o estresse.

Domínio de conhecimento

Outros estudos sugerem que níveis mais altos de domínio (como o conhecimento profundo de uma área ou de uma atividade) e autoeficácia (avaliação da sua habilidade de realizar uma certa tarefa) são associados a melhores funções de memória bem como também à avaliação positiva das relações sociais.

Humor

Talvez você tenha também já ouvido falar da importância do humor para o bom envelhecimento. Ele pode nos dar resiliência psicológica e uma visão mais positiva do mundo, que contribuem para o nosso bem-estar; pessoas com mais humor podem ter uma maior tendência de se envolver em atividades que promovem felicidade e, ainda, ter maior capacidade de reavaliar situações estressantes.

Resumindo, há farta evidência indicando que a saúde física e mental estão interligadas e, de fato, há mesmo um movimento crescente nas ciências médicas estudando a importância da espiritualidade (não confundir com religiosidade), que para muitos pode ser considerado outro aspecto positivo da personalidade. Há também um interesse cada vez maior no conceito da resiliência (falamos bastante sobre a importância da resiliência no Fórum da Longevidade em 2017).

 

Esse conceito me parece muito útil no contexto do envelhecimento, não só para estudiosos interessados nos mecanismos que prolongam a longevidade, mas para todos os que já entenderam que há o que fazer para se tornar uma pessoa mais saudável e feliz – independentemente das circunstâncias externas, muitas vezes, para outros, intransponíveis.

 

Claro que nem a essa coluna nem a mim cabe dizer o que você deve ou não fazer para enriquecer sua personalidade. Afinal, minhas reflexões apenas visam levantar questões (neste texto específico para falar sobre como os fatores pessoais e de nossa personalidade influenciam — para o bem ou para o mal — a maneira como envelhecemos).

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mariacristina

14 de novembro de 2018

Muito grata ao sr por esse texto simples e com tantos ensinamentos.


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