A importância do ambiente para envelhecermos bem

Nossa saúde e bem-estar na velhice dependem diretamente da qualidade do lugar onde vivemos

por Alexandre Kalache



Todos os determinantes da longevidade (sobre os quais já falamos neste espaço) estão interligados a fatores como a condição socioeconômica e o meio em que vivemos. Tudo isso influencia a saúde e o bem-estar ao longo da vida, especificamente, na velhice quando as reservas do corpo são mais limitadas (como expliquei neste texto).

 

Inúmeros estudos relacionam as doenças de “estilo de vida” (como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares) aos fatores negativos do ambiente, como poluição ou falta de áreas ao ar livre para se movimentar. Outros fazem uma associação positiva entre espaços urbanos, principalmente os verdes, e o bem-estar. Também é importante lembrar do impacto das mudanças climáticas e dos riscos que essas mudanças trazem.

 

A importância do verde

 

Estudos relacionam as doenças como a obesidade aos fatores negativos do ambiente

Espaços abertos, como parques e áreas de lazer ao ar livre, proporcionam oportunidades para fazer atividades físicas e recreativas e se socializar, aumentando nosso bem-estar por reduzir o estresse e melhorar o humor.

 

Um exemplo é a prática japonesa do shinrin-yoku (ou banho da floresta), que está se tornando uma moda no mundo ocidental por ter o potencial de reduzir o estresse e aumentar o bem-estar. O shinrin-yoku não é fazer uma trilha na floresta, e sim explorar a natureza com todos os sentidos e se embeber por completo nessa experiência sem associá-la a um exercício ou à socialização — sempre longe do celular.

 

 

Já os edifícios, incluindo nossa própria casa, influenciam a saúde e o bem-estar tanto pela localização quanto pela qualidade do projeto arquitetônico, que definem, por exemplo, a presença de umidade ou barulho, a ventilação, a exposição ao sol, a proximidade de serviços e do comércio, a segurança, o saneamento básico, o conforto e a acessibilidade.

 

Vulnerabilidade a desastres

 

Desastres naturais têm um forte impacto nas economias e nas vidas das pessoas. Com o envelhecimento global, essas situações emergenciais afetarão cada vez mais populações em que a proporção de idosos aumenta. Pelo fato dos idosos serem um grupo mais vulnerável eles também são cada vez mais as vítimas. Entre as vítimas do furacão Katrina, que atingiu os Estados Unidos em 2005, 75% tinham mais de 60 anos; nas enchentes de 2013 na serra fluminense, a maioria entre as vítimas era de idosos.

 

 

Muitos deles têm reservas diminuídas — por conta da baixa capacidade funcional e doenças crônicas que dependem de tratamento — e contam com uma menor rede de apoio. O acesso a medicamentos e serviços de saúde essenciais se torna mais difícil, e buscar refúgio pode se tornar impossível, devido à baixa mobilidade. Além do mais, por conta de preconceitos e falta de treinamento das equipes, os idosos são muitas vezes invisíveis para os socorristas.

 

O aquecimento global e a poluição do ar criam problemas respiratórios e aumentam o risco de câncer. Além disso, o ressurgimento de doenças consideradas erradicadas e o surgimento de novas doenças infecciosas estão ligados às mudanças climáticas.

 

Barulho prejudica a saúde

 

Outro aspecto que cada vez mais impacta a saúde é a poluição sonora. Uma pesquisa espanhola mostra que a poluição sonora traz mais riscos do que a do ar, e estudos na Europa demonstram que há mais reclamações em relação ao barulho do que a outros riscos ambientais.

 

 

A poluição sonora, aquela produzida por veículos motorizados e música alta, por exemplo, contribui para o risco de doenças cardiovasculares, ansiedade, depressão e, claro, de estresse, que é um risco para várias doenças. A qualidade do sono diminui e os hormônios de estresse aumentam, assim como o colesterol ruim, contribuindo para doenças como hipertensão e infarto.

 

Em resumo

 

O meio ambiente oferece fatores de risco e de proteção, aos quais estamos expostos a vida inteira e cujas consequências sentimos na velhice. Esses fatores têm forte inter-relação com outros determinantes. Se aos 40, por exemplo, você perde tudo por conta de uma enchente, terá mais dificuldade para chegar aos 60 com maior segurança financeira. Se desenvolver uma doença respiratória por ter passado a infância e adolescência em ambientes poluídos, é provável que tenha uma vida mais sedentária, e sua capacidade funcional declinará mais rápido.

 



É necessário refletir sobre as possibilidades de melhorar as condições do ambiente em que vivemos

 

Ao chegar à velhice, adequar o ambiente físico para compensar perdas como a de mobilidade pode ser de grande ajuda. É mais fácil adequar a casa, mudar para um bairro mais seguro, acessível e menos poluído e com transporte público melhor se tivermos melhores condições socioeconômicas. Então, é necessário não só questionar se o ambiente nos proporciona boas oportunidades para envelhecer bem, mas também refletir sobre as possibilidades de melhorar essas condições para a sociedade. Afinal, vivemos no mesmo espaço: um acesso igualitário a ele beneficia a todos.

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