A revolução da educação

O aumento da expectativa de vida e as transformações do trabalho pedem uma cultura inclusiva do direito ao aprendizado ao longo da vida

05/11/2019 - por Alexandre Kalache



Argumenta-se, com propriedade, que um do mais significativos legados dos últimos cem anos – com profundo impacto social – é o de termos uma vida mais longa.

 

Esta Revolução da Longevidade (já falei sobre ela nesta coluna aqui), nos obriga a repensar conceitos ainda arraigados sobre o envelhecimento e a velhice.

 

 

As nossas vidas mais longas não só colocam em cheque muitos dos nossos conceitos como também, com frequência, impactam as nossas habilidades. Daí a necessidade de estar sempre aprendendo.

 

Aliás, o aprendizado durante toda a vida será o tema do XIV Fórum da Longevidade, realizado no dia 12 de novembro em São Paulo, com patrocínio da Bradesco Seguros.



Está claro que o patrimônio educacional adquirido na juventude e ao início da idade adulta já não é suficiente para sustentar vidas mais longas e impactadas por grandes mudanças.

Esta Revolução da Longevidade está ocorrendo em paralelo à Quarta Revolução Tecnológica, que se caracteriza por uma imensa hiperconectividade entre uma ampla gama de componentes anteriormente segregados.

 

Essa fusão sem precedentes alcança todas as áreas – digitais, físicas e biológicas –, para criar uma teia extraordinária e altamente complexa. Em seu centro, estamos nós. Claro, há aspectos muito positivos – mas mudanças bruscas podem também provocar:

 

  • Maior insegurança quanto a emprego.
  • Necessidade crescente de múltiplas identidades.
  • Uma mobilidade imposta.
  • Uma propriedade desigual das novas tecnologias, assim como o usufruto dos seus benefícios.

 

Um estudo muito comentado da Universidade de Oxford previu que quase metade dos empregos que temos hoje em dia estão em risco de desaparecer nas próximas duas décadas. 

 

Outros estudos sugerem um risco menor de desaparecimento de empregos, mas alertam que a maioria das ocupações será radicalmente redefinida pelas novas tecnologias.

9%
dos empregos devem desaparecer

50 a 70%
dos empregos serão transformados

60%
dos trabalhos das próximas gerações ainda não existem

 

Fonte: Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

A Revolução da Educação

 

A forte sinergia entre a Revolução da Longevidade e a Revolução Tecnológica necessita de uma correspondente Revolução da Educação que traga em si, estruturalmente, uma cultura inclusiva do direito ao aprendizado ao longo da vida. 

 

A cada etapa da vida, todas as pessoas devem ganhar as ferramentas intelectuais e emocionais necessárias para um presente que evolui rapidamente e um futuro bastante incerto.

 

A nova arquitetura educacional deve ir muito além do foco voltado para aptidões de empregos. Ela deve incluir saúde, tecnologia, e literacia financeira (educação financeira) e de cidadania.

 

O aprendizado ao longo da vida é vital para sustentar a empregabilidade.

Ela deve valorizar a experiência e a intuição, e deve ampliar a resiliência, a autorreflexão e a empatia.

 

O aprendizado ao longo da vida é vital para sustentar a empregabilidade, mas também é fundamental para reforçar o bem-estar tanto do indivíduo quanto da sociedade.

 

Um novo modelo de aprendizado é necessário

 

Todas as pessoas devem ser acompanhadas ao longo de sua vida por um treinamento continuado no trabalho, cursos curtos, mentorias, tutoriais pela internet e possibilidades de aperfeiçoamento para acompanhar as mudanças cada vez mais rápidas em conhecimento e tecnologia.

 

À medida que os limites das diferentes etapas da vida ficam mais porosos, haverá menos segregação entre faixas etárias. Ao mesmo tempo, haverá mais gerações – ainda que com menos representantes de cada – presentes e engajadas na vida pública.

 

Números cada vez maiores de idosos e adultos mais jovens compartilharão os mesmos espaços e experiências – como, por exemplo, algum tipo de formação.

 

Os novos modelos de aprendizado ao longo da vida devem ser totalmente inclusivos e voltados para o aprendizado centrado na pessoa.  

 

Muitos estudos indicam que o aprendizado ao longo da vida, nos moldes como é oferecido hoje em dia, favorecem aqueles que já estão em melhor situação social.

 

Aqueles que poderiam ser os maiores beneficiados são os menos atendidos, e a participação tende a diminuir com a idade. Também está claro que a natureza e a aplicação das novas tecnologias, por si só, reforçam as desigualdades porque têm um impacto desproporcional entre as pessoas.

 

Segundo a OCDE, 40% dos trabalhadores que completaram o Ensino Médio estão em funções com alto risco de extinção, ao passo que menos de 5% dos trabalhadores com diploma universitário enfrentam esse risco.



“A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É o que fazemos com o que temos, não o que nos é dado, o que separa uma pessoa da outra.”

Nelson Mandela

O capital humano é o nosso ativo/recurso renovável mais valioso. Contudo, segundo a OCDE, 31% dos jovens de 15-19 anos e 71% dos adultos jovens de 20-24 anos no Brasil não estão matriculados em alguma instituição de ensino.

 

Como eles conseguirão se integrar à força de trabalho que passa por rápidas transformações em todo o mundo?

 

Quais serão seus comportamentos em relação à saúde ao longo do curso das suas vidas?

 

Quantos deles serão capazes de adquirir suficiência financeira?

 

Que tipo de apoio eles poderão dar aos seus pais idosos?

 

Que tipo de idoso eles terão se tornado em 2060?

 

O quanto a falta de formação e preparação para a nova era tecnológica deixará o Brasil limitado ao papel de exportador de commodities para países de economia mais sofisticada?

 

Como nação, devemos enfatizar uma cultura de aprendizado e buscar, escrupulosamente, toda a capacidade humana. Como indivíduos, devemos aprender a aprender, e assumir a nossa cidadania plena em cada etapa de transformação ao longo do processo continuado do envelhecimento.

0 Perguntas:

Pergunta enviada
para aprovação


Compartilhe: