A revolução da longevidade e a solidão

A síndrome do isolamento social já atinge milhões de idosos no mundo todo. Será que ela pode ser revertida?

26/03/2019 - por Alexandre Kalache



A sociedade moderna tem produzido conquistas notáveis e indiscutíveis — entre elas, a revolução da longevidade. No Brasil, apesar das condições precárias de vida em grande parte da população, e de todas as deficiências do sistema de saúde, espera-se que as crianças nascidas hoje vivam 30 anos a mais do que as nascidas em 1950. Isso é revolucionário, mas também traz impactos desafiantes e não antecipados, como a epidemia da solidão.

 

A Organização Mundial da Saúde prevê que, até 2030, distúrbios mentais, como a ansiedade e a depressão, sejam as principais causas de incapacidade e morbidade (doenças). O custo global associado a seu tratamento e impacto social (como a perda de produtividade) excederá US$ 1 trilhão (R$ 3,7 trilhões) nos valores de hoje. 

 

 

A depressão e a ansiedade estão ligadas à síndrome da solidão e do isolamento, que atinge centenas de milhões de pessoas. Entre elas, pessoas idosas, que já são o subgrupo populacional que mais rapidamente cresce no mundo. Dois dados para ilustrar: entre 1950 e 2050, a população global crescerá 3,7 vezes, enquanto que as pessoas com mais de 60 anos crescerão dez vezes mais. E as com mais de 80, 27 vezes mais (de 14 para 386 milhões de pessoas), justo o grupo com o mais alto risco de viverem isolados, em solidão.

 

À medida que envelhecem, as pessoas, na maioria das vezes, deixam de trabalhar fora de casa e, assim, não mais se beneficiam das oportunidades que o ambiente de trabalho proporciona. Com os filhos criados, bate a síndrome do ninho vazio, e muitos enfrentam a viuvez, ou seja, tudo conspira para haver menos interações com outras pessoas, embora se cercar de pessoas não signifique que a solidão não esteja presente.

 

Mudanças nas relações e nos núcleos familiares

 

As mudanças sociais são irreversíveis. Não voltaremos a viver nas zonas rurais e bucólicas que idealizamos como idílicas. As famílias hoje são nucleares (um núcleo com pais e poucos filhos, muitas vezes com mães solteiras), e estão crescendo na vertical e se estreitando na horizontal, com cada vez menos irmãos, primos e familiares de idade próxima, como mostrou Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no VI Fórum Internacional da Longevidade. Há muito se fala das famílias 4-2-1: quatro avós, os pais e um filho. Mas muitas famílias já chegaram aos 8-4-2-1!

 

É cada vez mais difícil que familiares de distintas gerações se sintam próximos, e menor ainda é a possibilidade de cuidarem uns dos outros.

As relações interfamiliares estão empobrecendo. É cada vez mais difícil que familiares de distintas gerações se sintam próximos, e menor ainda é a possibilidade de cuidarem uns dos outros — um aspecto essencial para uma pessoa não se sentir só.

 

Some-se a isso a complexidade dos centros urbanos, cada vez maiores, mais densos e mais impessoais, onde a sensação de pertencer diminui à medida que a violência aumenta. A noção de “bons vizinhos” soa abstrata nesses locais.

 

Daí vem a tecnologia com impactos extraordinariamente positivos, mas (que paradoxo!), com frequência, agindo como uma barreira para aquele contato olho no olho, cara a cara. Nunca as pessoas tiveram tantos “amigos” e puderam contar com tão poucos.

 

High Tech x High Touch

 

As redes não substituem o high touch que a high tech dificulta ou até impossibilita. Assistentes virtuais, como a Alexa, podem até responder a perguntas surpreendentes, mas não seguram suas mãos na hora do sufoco. Outro dia eu pedi a Alexa que ela assoviasse. A resposta foi a seguinte: “É difícil quando não se tem lábios para fazê-lo”. Imagine se precisasse de um beijo....

 

Para ilustrar, estou escrevendo esta coluna em um voo entre Granada e Londres, com conexão em Madri. Quando eu nasci, essa proeza seria inimaginável para um adulto “daqueles tempos”. O mundo atual permite conexões insonháveis. As oportunidades de “conhecer” pessoas se multiplicam exponencialmente e, no entanto, a solidão aumenta paralelamente à diminuição da sensação de pertencer a uma comunidade, a uma vizinhança, até mesmo a uma família.

 

No Reino Unido, o governo criou recentemente um Ministério da Solidão para combater essa epidemia. Mas, pouco articulado, com impacto potencial mínimo (por não poder influenciar demais ministérios “poderosos”), com um pequeno orçamento. Será que vai dar certo?

 

A tecnologia tem impactos positivos, mas age como uma barreira para aquele contato cara a cara.

Isso acontece no mesmo país onde as verbas para centros e serviços sociais estão sendo drasticamente cortadas, por exemplo, as mais de 500 bibliotecas públicas que foram fechadas nos últimos 18 meses. São nessas bibliotecas que as mães solteiras encontram espaço para levar seus filhos, que os idosos podem se aquecer nos longos e escuros dias de inverno, e que pessoas com problemas mentais são acolhidas sem questionamentos ou demandas.

 

São nesses centros e serviços de apoio que os problemas da solidão encontram respostas, não na criação de mais uma estrutura burocrática. O desafio é muito, muito maior do que medidas como essa, a criação de um ministério — a meu ver, populistas —, podem sanar.

 

E no Brasil?

 

Gostaria de ser otimista, mas trilhamos o caminho inexorável da solidão por dois grandes motivos: a desigualdade, que aumenta com o corte no orçamento social e o acesso à saúde, que antes mesmo de se tornar universal, está sendo desmantelado; e os centros de saúde – onde a população pode encontrar atenção primaria a seus problemas, inclusive prevenindo-os – sendo fechados ou sem condições mínimas de funcionamento. E a isso se associa à formação inadequada de profissionais. Aprendem tudo sobre desenvolvimento infantil, saúde da criança e mulheres grávidas, e depois terão que, pelo resto da vida, cuidar de idosos cada vez mais numerosos em nossa população.

 

O que fazer para evitar a solidão e combater o isolamento?

 

Se por um lado políticas públicas podem prevenir e/ou aliviar o problema da solidão e do isolamento, há muitos fatores que dependem do esforço de cada um. Adultos ranzinzas são considerados chatos – idosos, então, são evitados. Sejamos mais leves, tolerantes, pacientes – com isso, aumentaremos o nosso capital social.

 

Cultivar interesses e hobbies ao longo da vida aumenta a probabilidade de termos amigos mais tarde, quando temos menos chance de estabelecer e manter novas amizades. Atividades físicas, quando feitas em grupo, aumentam muito a chance de mantermos contatos sociais.

 

E reveja sua última semana – quantos sorrisos você trocou, quantas gentilezas até com desconhecidos você foi capaz de fazer? Será que na próxima você seria capaz de pedir a alguém idoso que lhe desse um abraço — daqueles bem apertados?

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