Afinal, o álcool aumenta ou reduz nossa longevidade?

Muito se fala sobre o efeito benéfico daquela taça de vinho, mas, o consumo inadequado pode prejudicar – e muito – sua saúde

por Alexandre Kalache



Em colunas anteriores, falei de vários fatores importantes que influenciam o envelhecimento. Agora, quero falar do álcool, cujo consumo é tão corriqueiro em nossa cultura que muitas vezes o incorporamos como algo sem maiores consequências.

 

O consumo de álcool só começa a incomodar quando chega a graus extremos de intoxicação e de mudança notória de comportamento. Devemos ter mais cuidado, pois seu efeito é traiçoeiro e cumulativo. Ele traz riscos irreversíveis para nossa saúde e para a perspectiva de bem envelhecer.

 

Há muita controvérsia em relação ao consumo de álcool: o que é tolerável, até mesmo saudável, e a partir de que quantidade seus efeitos podem ser nocivos? Investigações científicas nem sempre chegam às mesmas conclusões, e as mídias sociais disseminam informações muitas vezes pouco criteriosas – afinal, há muito interesse comercial em jogo.

 

O efeito do consumo excessivo do álcool traz riscos irreversíveis para nossa saúde e para a perspectiva de bem envelhecer.

E então? Aquela taça de vinho tinto todas as noites ou aquela cervejinha na hora do almoço não é benéfica para a saúde?” A resposta pode fazer os adeptos se sentirem confirmados e conformados. A linha de demarcação não é tão taxativa quanto a do tabagismo, em que um cigarro já faz estrago.

 

Mas nem sempre foi assim. Há algumas décadas, a indústria do tabaco preconizava seus efeitos benéficos. Nos dias de hoje, o mesmo acontece com o álcool. Quem não leu sobre o efeito protetor do vinho tinto? Ou sobre como os povos longevos costumam consumir álcool com frequência? E depois disso logo pensou ou comentou com amigos ou com a família: “Viu? Não te falei que beber não faz mal?”.

 

Na nossa cultura, o álcool é socialmente tolerado e aceito como um hábito que traz relaxamento e diversão, principalmente, entre os homens. Embora as taxas sejam maiores entre os mais jovens, dados de uma pesquisa feita pelo Datafolha publicados no início deste ano sobre o consumo de álcool por pessoas idosas causaram alarme entre os especialistas, em particular o fato de que um em cada dez homens idosos no país bebe diariamente.

 

 

O estrago que o álcool faz

 

É necessário chamar a atenção desses consumidores frequentes de álcool para o alto risco a que estão se expondo, não só para a saúde (pelo risco associado a várias doenças crônicas, começando pela cirrose hepática). As consequências negativas atingem as finanças, o aumento dos acidentes e da violência. Sem contar impactos pessoais como desemprego e divórcios.

 

Pessoas idosas são tão sensíveis aos efeitos do álcool como crianças e adolescentes, pois na velhice é comum haver interação com medicamentos, principalmente, os calmantes (cerca de 10% dos idosos são dependentes deles). Essa combinação até mesmo levar a um risco mais alto de suicídio.

 

Além disso, o metabolismo do idoso é mais lento, ou seja, o organismo leva muito mais tempo para "limpar" o corpo do álcool consumido. É como se a mesma dose tolerada por um adulto mais jovem fosse multiplicada muitas vezes, pois a substância continua circulando e causando danos de modo prolongado. Beber álcool impacta cumulativamente os sistemas nervoso, circulatório e gastrointestinal, e anos de danos vão aos poucos causando um envelhecimento exacerbado e levando ao risco de uma morte prematura.

 

Em todo o mundo, 6% das mortes são causadas pelo alcoolismo e 5% das deficiências são consequências do uso abusivo de álcool. Entre as pessoas que têm de 20 a 39 anos, cerca de um quarto das mortes é atribuída direta ou indiretamente ao álcool. Além das doenças crônicas causadas pelo uso abusivo de álcool, também há estudos que mostram maior incidência de doenças infecciosas, como tuberculose e Aids.



Em todo o mundo, cerca de 1/4 das mortes de pessoas que têm de 20 a 39 anos é atribuída ao álcool.

Mas, afinal, o álcool faz bem?

 

O álcool deixa as pessoas menos inibidas, sentindo-se mais leves e felizes. Daí o perigo: com menos “amarras”, a vida parece, de repente, mais fácil.  Mas há outra razão para você pensar que o álcool faz bem. Circulam por aí matérias mostrando os possíveis benefícios do álcool para o sistema cardiovascular. Além disso, muito se lê sobre os antioxidantes do vinho tinto e sobre outras substâncias encontradas em bebidas alcoólicas e que seriam benéficas à saúde.

 

As investigações relacionadas às famosas Blue Zones apoiam a ideia de que o consumo moderado e regular de vinho, principalmente do tinto, é um dos motivos da longevidade dos povos que vivem nas tais zonas azuis, como a ilha de Sardenha, na Itália. Na Serra Gaúcha (na cidade de Veranópolis) também foi encontrado o fator protetor à saúde no consumo moderado e regular de vinho, explicado principalmente por sua ação antioxidante.

 

Mas considere também em mais detalhe o estilo de vida dos habitantes dessas zonas azuis. Esses povos longevos têm uma rotina diária com bastante atividade física (por exemplo, devido ao trabalho no campo), alimentação balanceada, com abundância de legumes, verduras, frutas e até queijos que eles produzem. O consumo de carnes e gordura animal é baixo. E vejam que interessante: as refeições são feitas em companhia, um ato social, de trocas, que produz bem-estar e ajuda a eliminar arestas. Finalmente, a espiritualidade quase sempre tem um papel importante nesses povos. É nesse contexto que o consumo moderado de álcool diariamente está associado à longevidade.

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