Como envelheceremos na Quarta Revolução Industrial?

A transformação digital do terceiro milênio causa mudanças profundas, com uma rapidez sem precedentes

26/08/2019



O envelhecimento da população do mundo é considerado um dos grandes triunfos do progresso humano. Uma vida longeva deixou de ser privilégio de poucos, para se tornar uma expectativa realista para muitos, o que deve ser celebrado. 

 

O prolongamento da vida ocorre em consonância com outras questões, como a urbanização, a globalização, a mobilidade humana e o dinamismo estonteante de novas tecnologias.

 

Essas tecnologias abrem um espaço socioeconômico inteiramente novo, redefinindo o que entendemos por uma vida mais longa. Nós entramos na nova era da velha idade, e também na era que marca a Quarta Revolução Industrial.

 

 

O que é a Quarta Revolução Industrial?

 

A Quarta Revolução Industrial está produzindo mudanças profundas, com uma rapidez sem precedentes.

 

Caracterizada pela hiperconectividade, ela está criando uma rede dinâmica que perpassa o ambiente digital, o virtual, o físico e o biológico.

 

Essas colaborações altamente inovadoras são feitas a partir de ideias formuladas em tempo real, a partir de dados e megadados.

 

Essas ideias, por sua vez, abrem a porta para uma ampla gama de possibilidades de mudança, e reduzem o tempo entre as ações e as ideias, sinalizando transformações entre o que é apropriado para (e dominado por) um grupo, para o que é acessível para todos.

 



“Nossas invenções mudam o mundo, e o mundo reinventado muda a nós mesmos.” 

Sheila Sen Jasanoff, especialista em Tecnologia

 

As repercussões da Quarta Revolução Industrial sobre as pessoas têm sido objeto de debate constante.

 

Um estudo da Universidade de Oxford previu que quase metade dos empregos existentes correm risco de extinção nas próximas duas décadas. Outros estudos sugerem que a maioria das ocupações será significativamente redefinida pelas novas tecnologias.

 

Há um grande potencial para o surgimento de novas desigualdades, assim como para que as existentes hoje sejam aprofundadas. Cerca de 1 bilhão de pessoas não dispõem de eletricidade. Mais da metade da população mundial ainda não tem acesso à internet.

 

O Fórum Econômico Mundial foi um dos primeiros articuladores da Quarta Revolução Industrial (a título de transparência e para afastar o risco de conflitos, revelo ser fellow do Fórum desde a primeira vez que participei da Cúpula de Davos, em 1998, e fui membro de vários de seus conselhos e comitês diretores desde 2009). 

 

O Fórum fundou o Centro para a Quarta Revolução Industrial em São Francisco, em 2017, para reunir governos, o setor privado, a sociedade civil e especialistas de todo o mundo, e “codesenhar e conduzir abordagens inovadoras à política e à governança das novas tecnologias”.

 

O Centro de São Francisco forma um polo global para a formação da rede da Quarta Revolução Industrial que, desde 2018, inclui centros na China, na Índia e no Japão, bem como, desde 2019, centros afiliados regionais autônomos na Colômbia, em Israel, na Arábia Saudita, na África do Sul e nos Emirados Árabes Unidos.



“A Quarta Revolução Industrial tem o potencial de aumentar os níveis de renda e melhorar a qualidade de vida para todos.”

Relatório de Riscos do Fórum Econômico Global 2017

Os efeitos para o Brasil

Para uma sociedade tão desigual e despreparada quanto a brasileira, as mudanças disruptivas da Quarta Revolução Industrial apresentam riscos socioeconômicos especialmente alarmantes.

 

A disseminação das novas tecnologias e a flexibilidade na adoção dos modelos de startups indicam que haverá alguns sucessos individuais no Brasil. Assim como em outros países em desenvolvimento, haverá um certo grau de avanço tecnológico.

 

Mas, a menos que haja um investimento expressivo em infraestrutura, aprendizado ao longo da vida, ecossistemas de inovação local e mecanismos de governança para um governo responsivo, boa parte da sociedade brasileira continuará provavelmente sem ter ganhos significativos. Além do mais, é alto o potencial para uma maior alienação, assim como para convulsões sociais.

 

Uma matéria publicada no jornal Valor Econômico, em julho passado, mostra que o Brasil está ficando para trás quando se fala em Quarta Revolução Industrial. Segundo dados da Federação Internacional de Robótica, em 2017 o país ocupava a 18ª posição no ranking internacional do estoque de robôs, com um total de 12.373, contra 473.429 da China. Mesmo na América Latina, o Brasil foi superado pelo México, com seus 27 mil robôs.

 

Embora a automação industrial seja apenas um dos indicadores, um país com nível de automação tão baixo mostra que está tendo dificuldades para ingressar na Quarta Revolução Industrial. Associa-se a isso o fato de que os nossos índices de investimento (público e privado), de competitividade e de produtividade são dos mais baixos entre os grandes países.

 

As oportunidades

 

Os riscos, para um país como o nosso, sim, são grandes. Mas falemos das oportunidades.

 

Globalmente, um setor da economia que só agora está de fato despertando para a Quarta Revolução Industrial é o agrícola. Como somos um grande produtor e exportador de alimentos, isso nos interessa.

 

Novos hábitos dos consumidores, preocupações com saúde, bem-estar, sustentabilidade (meio ambiente) e o crescimento da era digital vão ser os motores da revolução tecnológica na agricultura.

 

Existe ainda um outro fator que também vai contribuir para o crescimento desse mercado: o rápido envelhecimento populacional, um propulsor de novos hábitos e preferências alimentares.

 

Há oportunidades emergindo, ainda mais em um país muito necessitado e tão dependente desse mesmo setor da economia.

 

Adaptar para mudar

A velocidade e a profundidade das mudanças, a maior insegurança quanto ao emprego, a mobilidade geográfica imposta, a maior necessidade de múltiplas identidades e a apropriação desigual das novas tecnologias significa que se deve prestar muito mais atenção às disrupções humanas da Quarta Revolução Industrial.

 

As pessoas devem se adaptar às mudanças culturais, assim como as instituições. Devemos nos concentrar em aperfeiçoar os marcadores e indicadores de bem-estar (como a resiliência, a inteligência emocional e a sensação de controle), ao longo do curso de vida.

 

Deve haver espaço para muitos níveis de tomadas de decisão sobre o que engrandece ou diminui a nossa humanidade. Em cada fase da vida, todas as pessoas devem desenvolver as ferramentas intelectuais e emocionais necessárias para enfrentar um presente que evolui com rapidez e um futuro incerto.

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