Como o gênero influencia o envelhecimento ativo?

Nossas características biológicas são determinadas pelo sexo a que pertencemos – e muitas vezes confundimos o que significa ser de um sexo ou de outro com “gênero”, que é uma construção cultural

por Alexandre Kalache



Além da cultura, o gênero é outro fator que influencia transversalmente todos os outros determinantes do envelhecimento ativo. O gênero como a cultura moldam as pessoas e o ambiente físico e social no qual vivem. O sexo a que pertencemos é apenas uma característica biológica. O gênero, como construção social, impacta os determinantes comportamentais (como o autocuidado com a saúde), sociais (relacionamentos), econômicos (renda e emprego), ambiente físico (onde vivemos e trabalhamos) e o acesso a serviços de saúde e sociais.

 

Gênero e cultura estão fortemente interligados. As expectativas que temos sobre os papéis desempenhados por mulheres e homens variam de uma cultura para outra. Por exemplo, em todas as sociedades, praticamente sem exceção, é esperado que as funções ligadas ao “cuidar” caibam fundamental às mulheres. E que aos homens caiba a função de prover, de gerar renda. Esses papéis tradicionais estão em evolução, mudando, mas... lentamente.

 

Construções sociais relativas ao gênero trazem consequência para a saúde, o bem-estar e as finanças

Outro exemplo, desde pequenos, os homens aprendem que “menino não chora” e, portanto, aprendem a não se queixar de dores. Falar de “sentimentos” é outro tabu. Meninas, no entanto, desde pequenas, vão cuidar de bonecas, depois dos filhos, dos netos, dos pais, dos sogros... e do marido. Muitas vezes, quando mais precisam, não têm quem lhes cuidem.

 

Essas construções sociais têm enormes consequências para a saúde, o bem-estar e para as finanças. Universalmente, as mulheres ganham menos que os homens – mesmo desempenhando a mesma função. E, por vezes, quando os papéis tradicionais de gênero não são seguidos, surgem atitudes discriminatórias no trabalho e na própria família. Homens continuam se expondo a mais riscos ao longo da vida: de acidentes, de serem vitimas de violências, de adotarem hábitos prejudiciais à saúde como o tabagismo, uso de drogas (inclusive o álcool em quantidade excessiva). E por aí vai.

 

As construções sociais de gênero refletem-se também nas leis e políticas públicas. Por exemplo, o tempo que as mulheres passam cuidando dos filhos ou parentes – assim ficando fora do mercado de trabalho – não é levado em conta no cálculo da aposentadoria. E há mesmo países em que as mulheres são proibidas de estudar e de trabalhar sem autorização de um homem, de dirigir, viajar sozinhas ou receber heranças. Se ficam viúvas, tornam-se ainda mais vulneráveis.

 

 

 

Gênero influencia como mulheres e homens podem otimizar as oportunidades para o envelhecimento ativo

Todos esses fatores influenciam como mulheres e homens podem otimizar as oportunidades para o envelhecimento ativo ao longo do curso da vida: manterem-se saudáveis, poderem sempre acumular conhecimentos, participarem plenamente da sociedade e envelhecerem sentindo-se seguros, protegidos.

 

Urge que entendamos a necessidade de uma reavaliação sobre quem somos, como nos relacionamos com nossas vidas mais longevas e uns com os outros como mulheres e homens*. Isto se faz ainda mais necessário, face a uma maior consciência da diversidade no que toca a gênero: identidades antes sufocadas, mantidas invisíveis, estigmatizadas e hoje aflorando, demandando reconhecimento.

 

* Carta sobre Gênero e Envelhecimento, ILC-BR 2014

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