Homens: reconheçam a necessidade de cuidar de si

Desde a infância, os homens morrem mais prematuramente, e as diferenças são somente, em parte, explicáveis por fatores biológicos

27/11/2019 - por Alexandre Kalache



No início de novembro, eu fiz uma viagem de Boston, nos Estados Unidos, para Londres. No caminho para minha casa na capital inglesa, desde o aeroporto, vi vários anúncios nas plataformas, e mesmo nos vagões, sobre o Outubro Rosa – aludindo à importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Lá em Boston, a mesma coisa.

 

Não havia nenhum sinal de Novembro Azul, muito menos sobre o câncer de próstata.

 

Em ambos os casos, o principal fator de risco para a incidência e a mortalidade desses dois tipos de câncer é o envelhecimento – quanto mais velhos ficamos, maior a probabilidade de ter e/ou morrer dessas duas doenças intrinsicamente associadas ao sexo a que pertencemos (apenas 1% dos casos de câncer de mama ocorrem em homens).

 

 

No Reino Unido, o total de mortes de ambos é bem próximo – em 2016, foram 11.714 mortes por câncer de próstata e 11.399 por câncer de mama, segundo o Cancer Research UK. A título de comparação, no Brasil, essa diferença é maior para o câncer de mama: em 2017, foram 1.333 óbitos a mais.

 

Mas o fato é que a percepção geral é de que o câncer de mama é muito mais frequente. Há mais visibilidade, campanhas, programas de detecção precoce – e há muito mais tempo. Eu sei bem disso pois o meu doutorado, no fim da década de 1970, na Universidade de Oxford, foi sobre o câncer de mama.

 

Em minha opinião, o que explica isso tem a ver com três fatores:

 

  • O câncer de próstata só incide e mata homens a partir dos 65 anos, enquanto o câncer de mama, embora igualmente muito mais frequente entre mulheres idosas, ocorre também entre mulheres mais jovens, já que em torno de 15% do total têm menos de 40 anos, segundo dados de 2018 do Office of Population and Census Bureau.
  • No geral, as mulheres estão muito mais “antenadas” à sua saúde do que os homens. Se cuidam mais e frequentam muito mais os serviços de saúde. Isso desde a puberdade. Enquanto isso, os homens vão, literalmente, empurrando com a barriga.
  • O ativismo justificado dos movimentos feministas há décadas, clamando por mais atenção à saúde da mulher.

 

As taxas de mortalidade por câncer de mama desde os anos 70 no Reino Unido decresceram em cerca de 40% — uma situação, infelizmente para nós, bem diferente da do Brasil, que viu o número de mortes saltar de 3.453 em 1979 para 16.724 em 2017 (dados do Ministério da Saúde).

 

Homens: não sejam relapsos quanto à sua saúde. Acordem e se cuidem

Mas, voltando ao exemplo do Reino Unido, é importante que se continue nessa trajetória de queda. No entanto, por outro lado, a mortalidade por câncer de próstata aumentou nesses mesmos anos em mais de 18% (dados do Imperial Cancer Research Fund, 2018) — no Brasil, o salto é ainda maior: de 2.204 mortes em 1979 para 15.391 em 2017.

 

Há, claro, um elemento forte de “idadismo” nisso tudo. Por que se importar muito pelo que somente homens velhos, sobretudo muito velhos, morrem,mesmo que essas mortes possam ser, em parte, evitadas e menos sofridas?

 

A tradução prática de todos esses fatores é que não só há mais visibilidade para o câncer de mama, mas também há muito mais recursos direcionados à pesquisa mundo afora para o seu combate (embora a saúde da mulher tenha sido negligenciada ao longo de toda a história).

 

O que não se justifica é que os homens continuem tão relapsos quanto à sua saúde. Que acordem e se cuidem!

 

Cuidado para toda a vida

 

Eu quis apenas dar um exemplo, em pleno Novembro Azul. Mas o que eu disse acima se aplica praticamente a todas as doenças.

 

Desde a infância, os homens morrem mais prematuramente — de infecções a doenças cardiovasculares, outros tipos de câncer, diabetes, alcoolismo, acidentes e violência.

 

E as diferenças são pouco explicáveis por fatores biológicos.

 

É muito mais devido ao comportamento, ao estilo de vida e à cultura machista.É comum ouvir de um homem frases como: “falar de doenças, de dores, de cuidado, nem pensar, eu sou homem, com h maiúsculo, uma máquina indestrutível”. E também se explica pela desatenção dos serviços de saúde.

 

Globalmente, as mulheres têm uma esperança de vida ao nascer (e ao longo da vida em todos grupos etários) maior do que dos homens. Na maioria dos países esta diferença é de 3 a 6 anos. No Brasil a diferença é bem maior – de 7,5 anos. Em 2017, de acordo com dados da United Nations Population Division, as mulheres viviam em média 78,7 anos, enquanto os homens, 71,3.

 

Em grande parte, a violência explica. Aqui no Brasil, temos mais de 60 mil homicídios (fora as 70 mil pessoas que desaparecem), 90% deles do sexo masculino, a maioria entre 15 e 34 anos. Mortes de jovens – e, diga-se, a maioria negros e pardos – puxando para baixo a esperança de vida.

 

Em artigo que publiquei em 1999, no International Journal of Men’s Health, eu escrevi dois parágrafos que são tão atuais hoje como eram há 20 anos:

 

 “A rapidez com que a população mundial envelhece exige um enfoque rigoroso sobre questões de gênero, para o maior sucesso das políticas desenvolvidas. Contudo, com frequência, a questão de gênero no contexto da saúde está erroneamente apenas relacionada a problemas femininos. Enquanto as mulheres sofrem uma carga maior de morbidade e incapacidade, os homens morrem mais cedo — e é preciso esclarecer melhor as razões.

 

A batalha deve ser contra a complacência, contra comportamentos arraigados, na busca de uma cultura em que os homens reconheçam a importância de cuidar de si, uma cultura de autocuidado que substitua a crença hoje vigente de os homens se verem como ‘máquinas indestrutíveis’. Essa batalha pode, eventualmente, levar o setor de saúde a reconhecer que também deve atender às questões próprias da saúde do homem. Com frequência, em todo o mundo, a mensagem que o setor de saúde passa é ‘Nós não temos interesse na sua saúde’; muitos homens só têm contato com o setor de saúde na infância e/ou ao fim da vida. Muito pouco, muito tarde.”

 

Então, seja homem – cuide mais de si próprio.

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