Manter-se independente é consequência, em grande parte, de nossas ações

Se você já chegou aos 30, prepare-se: provavelmente sua capacidade funcional já está no declínio. A boa notícia é que há inúmeras ações que ajudam a desacelerar essa queda

Por Alexandre Kalache



Estamos todos cientes do que vivenciamos em nossa infância, adolescência e na vida adulta tem imenso impacto na nossa velhice. Nos últimos anos, acumulamos evidências incontestáveis quanto aos determinantes sociais de saúde e como eles influenciam nossos estilos de vida – seja por meio de escolhas pessoais ou pelas limitações que nos impõem. De um modo ou de outro, a qualidade de nossas vidas no futuro é imensamente influenciada pela forma como vivemos antes.

 

É a poluição ambiental que nos rodea, o sedentarismo, a dieta pouco saudável. É a falta de vacinas na infância, o pouco acesso ao ensino de qualidade na adolescência, o tabagismo ou o uso de álcool que não deixamos enquanto adultos mais jovens. Exemplos não faltam.

 

Há 30, 40 anos ainda não tínhamos tantos estudos e um conhecimento tão profundo como hoje no tocante ao conceito do curso de vida – muito menos sobre os determinantes sociais de saúde. Mas, pouco a pouco, chegamos ao desenvolvimento de um simples gráfico para demonstrar como, ao longo do nosso curso de vida, nossa capacidade funcional (não cognitiva ou intelectual, o gráfico se refere à capacidade física, como a força muscular, a capacidade ventilatória) se alteram.

 

Gráfico Abordagem do curso de vida em relação ao envelhecimento ativo, inspirado no trabalho de Kalache e Kickbusch (1997) e desenvolvido sob orientação do ILC-BR

 

O gráfico explica a trajetória da capacidade funcional ao longo do curso de vida. No início de nossas vidas, somos dependentes de quem nos cuide e, ao longo das etapas de crescimento e desenvolvimento (infância, adolescência, primeiros anos de idade adulta), a capacidade funcional vai aumentando. Lá pelos 25, 30 anos atingimos um pique: nunca seremos tão fortes, rápidos, com tão alta capacidade funcional. Os jovens sempre se surpreendem quando digo que quem tem mais de 30 anos já está em declínio! Mas é isso, chegamos ao pique da nossa capacidade funcional no início da vida adulta e, a partir daí, é natural que, aos poucos, ela se reduza.

 

Desacelerando

 

É óbvio que há muita variação entre indivíduos. Pensa só, um atleta de alto rendimento aos 40 anos, normalmente, goza de melhor saúde do que uma pessoa 20 anos mais jovem obesa, sedentária, que bebe várias cervejinhas todos os dias. O gráfico também sugere que a qualquer momento de nossas vidas, podemos “desacelerar” esse declínio – adotando estilos de vida mais saudáveis ou com diagnósticos precoces das doenças crônicas: manter-se independente depende em grande parte de nós mesmo.

 

Há inúmeras ações que podem baixar esse limiar de dependência. Falo de ações de promoção de saúde a nível individual ou populacional, de adaptações ao ambiente físico e de apoio à rede social do indivíduo. A dificuldade de se locomover, por exemplo, é mais incapacitante para quem vive num ambiente cheio de barreiras e sem apoio de amigos ou familiares. Já para quem tem uma boa rede de apoio e vive num ambiente adaptado, essa dificuldade interfere muito menos com nossa vida do dia a dia. Destas ações, depende nossa qualidade de vida – nosso bem envelhecer.

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Perguntas recentes:

MONICA ELISA LAURINO

31 de janeiro de 2019

Estou lendo o Guia Cidade Amiga do Idoso, gostando bastante. Moro em Maringá, PR e enviei o arquivo para o prefeito da minha cidade. Nessas férias, assistindo Grace e Frankie, cap. 4 , vi pela primeira vez uma crítica sobre o tempo dos semáforos para os idosos e andando pela minha cidade a vejo diferente. Em 2018, passando pela depressão da minha mãe (74 anos), que se percebeu de repente idosa me fez pensar bastante. Então em uma busca pela internet, descobri o programa mineiro "Sou60" , conheci você, suas ideias e estudos que me ajudaram bastante. Hoje tenho questões a responder, mas agradeço porque tenho muitas mais respostas sobre questões que nem havida pensado e isso foi bem melhor. Um grande abraço professor Kalache e quem sabe um dia nos encontramos nas calçadas de Copacabana. Feliz 2019!

Alexandre Kalache

04 de junho de 2019

Muito grato, Monica, por seus comentários positivos.

Espero que a sua mãe continue livre do buraco negro que a depressão significa. Felizmente, vivemos hoje dias em que a depressão pode ser tratada eficazmente com medicamentos, mas não descuide das intervenções de cunho social que a façam engajada na sociedade, com propósito de vida.

O Sou60 é um programa muito interessante, gosto muito da Roberta – ficamos amigos. Dentre muitas outras entrevistas recentes, há uma que dei para o Roda Viva (em 14 de janeiro 2019) de que gosto muito. E se não nos encontrarmos em Copacabana, pode ser um dia na Av. Afonso Pena... Tenho algumas idas a Belo Horizonte programadas para este ano, mais precisamente nos dias 13 e 14 de agosto, para um evento da Rede Viver Bem. Um grande abraço!


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