Pergunte a uma mulher mais velha a importância do Dia da Mulher

É tentador achar que alcançamos a igualdade de gênero, mas ainda estamos longe desse objetivo. Todos podemos contribuir para um equilíbrio maior entre mulher e homem

12/03/2019 - por Alexandre Kalache



As leitoras mais jovens talvez tenham a impressão de que, hoje, as mulheres já ganharam o seu espaço na sociedade, e que já alcançamos uma sociedade mais equilibrada e harmônica, sob o ponto de vista de gênero. Nas últimas décadas, houve, sim, conquistas importantes.

 

As mulheres mais jovens hoje estudam mais tempo, participam mais do mercado remunerado de trabalho (ainda que com defasagem salarial), passam a compartilhar mais as tarefas domésticas com seus companheiros, e têm a possibilidade de decidir se irão ter filhos, quando e quantos.

 

As leitoras mais velhas, porém, são provas vivas de que a desigualdade de gênero persiste e influencia a vida em todo o seu curso. Muitas estudaram menos, não trabalharam para se dedicar exclusivamente à família, e a maioria jamais conquistou uma independência financeira. Tudo isso contribui para que, hoje, vivam em situações muito mais vulneráveis que os homens da sua geração.

 

 

Muito a ser feito

 

Embora elas tenham se beneficiado com as conquistas e os direitos pelos quais a sua geração tanto lutou, ainda há muito a ser feito.

 

Com a maior visibilidade de mulheres em cargos de liderança, e com uma legislação mais avançada para proteger e promover os direitos das mulheres, é tentador achar que alcançamos a equidade de gênero. Estudos internacionais, porém, mostram que isso está longe de ser atingido. Com frequência, a mulher, desde a infância, sofre discriminação no acesso à saúde, à educação, à cidadania e ao mercado de trabalho, o que traz consequências muito negativas para o desenvolvimento pessoal ao longo da vida e, por consequência, grande vulnerabilidade na velhice.



Para tornar a jornada feminina mais equilibrada, é essencial mudar as nossas atitudes (principalmente, os homens!), e as nossas políticas empresariais e públicas.

Vou dar alguns dados para colocar isso no contexto, mostrando, assim, que a desigualdade de gênero é mensurável.

 

  • Em todo o mundo, as mulheres prestam 2,6 vezes mais cuidado não remunerado e trabalho doméstico que os homens.
  • Uma em cada três mulheres são vítimas de violência ao longo da vida.
  • Mundialmente, apenas pouco mais da metade das mulheres, casadas ou em uniões estáveis, toma decisões livres sobre relações sexuais, contracepção e acesso a serviços de saúde. 

 

E isso é a média. Obviamente, há países onde a situação é muito mais alarmante.

 

Mas não são apenas costumes e comportamentos, individuais ou impostos pela sociedade, que geram essa desigualdade de gênero. A discriminação é, com frequência, enraizada na legislação. Basta observar que ainda há 37 países onde  autores de estupro não são autuados se eles são casados com as vítimas ou se vierem a se casar com elas. Isso me faz lembrar de um ponto que ressaltei em uma das minhas primeiras colunas: a forte ligação que existe entre gênero e cultura.

 

Um novo caminho para as mulheres

 

As expectativas que temos sobre os papéis desempenhados por mulheres e homens variam de uma cultura para outra. Por exemplo, em todas sociedades, praticamente, sem exceção, é esperado que as funções ligadas ao “cuidar” caibam fundamentalmente às mulheres. E que aos homens caiba a função de gerar renda. Esses papéis tradicionais estão em evolução, mudando, mas ainda lentamente. O que você ouve mais: que “fulana ajuda nas finanças” ou que “fulano ajuda nas finanças”?

 

Esse processo, no qual mulheres ganham cada vez mais espaço no mercado remunerado de trabalho, está gerando novos desafios. As mulheres cada vez mais carregam uma dupla ou tripla carga, sem terem uma rede de apoio que poderia absorver um pouco desse excesso de responsabilidades com o trabalho, a casa, a família e, não podemos esquecer, com a própria saúde.

 

Muitas mulheres mais velhas só sentem os resultados dos movimentos feministas agora. Tendo saúde e recursos financeiros, elas vivem uma nova liberdade nunca sentida antes. A opressão que sentiram quando mais jovens acabou, e a recém-conquistada liberdade traz para elas novas oportunidades de participação.

 

É, portanto, importante que, no mês da mulher, façamos uma reflexão sobre essa redefinição do curso de vida de uma mulher e de um homem, sobre a renegociação das responsabilidades domésticas e com os que precisam de cuidados.

 

Todos temos um papel e podemos contribuir para um maior equilíbrio entre mulheres e homens

Embora haja muito a ser feito no âmbito de políticas, todos temos um papel e podemos contribuir para um maior equilíbrio entre mulheres e homens, porque, afinal, essa desigualdade é gerada pela nossa sociedade, e não pela biologia.

 

Veja que, realmente, a noção de que existem diferenças genéticas significativas entre o cérebro masculino e o feminino é imprecisa. É muito mais correto dizer que o cérebro reflete a vida que viveu e não seu gênero. Como diz a neurocientista britânica Gina Rippon, "a pinkification (meninas vestidas de rosa e meninos vestidos de azul) tem que deixar de existir".

 

A revolução da longevidade é feminina

 

Uma reflexão que ainda gostaria de trazer nesta coluna é que a grande mudança que ocorreu com a revolução da longevidade e com o curso de vida de hoje, comparando a de 40, 50 anos atrás, é muito mais no universo feminino do que no masculino. Homens, no geral, seguem vivendo mais ou menos como sempre viveram, ou seja, aprendendo no início da vida, trabalhando ao longo da idade adulta e finalmente se aposentando – só que agora com mais anos de trabalho.

 

O curso de vida das mulheres sofreu alterações muito mais radicais. E destaco o fator mais determinante para tanto: a pílula contraceptiva. Gozar de uma vida sexual sem ser escrava de seu aparelho reprodutor é das mudanças mais profundas da história. A partir daí, tudo mudou. Claro, centenas de milhões de mulheres mundo a fora ainda não se beneficiaram dessa conquista, mas, para as que a puderem experimentar... ... perguntem às suas avós como era!

 

E outra reflexão que vale lembrar é expressada nas palavras da famosa atriz e comediante americana Joan Rivers. Ela costumava dizer que atrizes mais jovens não deveriam apenas reconhecer o fato de ela ter aberto portas para quem vinha atrás, mas também ficar gratas por ela o continuar fazendo do alto de seus 80 anos!

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