Qual é o futuro do envelhecimento?

Desigualdade e injustiça social não só contaminam o nosso presente, como também definem o futuro do envelhecimento

14/05/2019 - por Alexandre Kalache



O tema do último Fórum Internacional da Longevidade no Rio de Janeiro, realizado nos dias 22 e 23 de novembro de 2018, foi o futuro do envelhecimento (veja o documento do encontro). Já podemos antecipar muito sobre o futuro do envelhecimento no Brasil. Isso porque as pessoas que compõem esse futuro imediato já são adultas hoje. Eles são a face futura do envelhecimento no Brasil – e o futuro do envelhecimento em nosso país será moldado por sua experiência coletiva de envelhecimento.

 

Também sabemos qual tem sido a experiência de outros países cujas populações envelheceram antes de nós. O mundo pode ser dividido em três categorias – as nações que já envelheceram, aqueles que estão envelhecendo rapidamente, e aqueles que ainda são relativamente jovens, mas que logo seguirão a característica demográfica definidora do século 21: o envelhecimento.

 

 

O Brasil está na categoria média e está envelhecendo muito mais rapidamente do que os países que fizeram isso antes de nós. Mas há outra diferença significativa. Os países que nos precederam adquiriram suas vidas mais longas gradualmente e, em grande parte, como resultado de melhorias generalizadas na habitação, no saneamento e na saúde pública. Os brasileiros estão vivendo mais, apesar da pouca melhora generalizada nesses três campos.

 

Em geral, estamos vivendo mais por causa de intervenções como programas de vacinação (particularmente na primeira infância), novos medicamentos (como antibióticos) e tecnologias que permitem a detecção precoce de doenças (sempre quando disponíveis, é claro).

 

Nossas vidas mais longas estão sendo desafiadas pelos mesmos aumentos nas doenças não transmissíveis, frequentemente associadas à idade avançada e a características de países mais ricos (doenças cardiovasculares, derrames, diabetes, etc.), além das persistentes “velhas” doenças transmissíveis (como infecções respiratórias, tuberculose, malária e febre amarela). O Brasil está passando por um duplo fardo de doenças.

 

Muitas vidas danificadas são um profundo desastre social. Para todos.

Outros países ficaram ricos antes de se tornarem velhos. O Brasil está envelhecendo antes de se tornar rico (ou, pelo menos, antes que a riqueza se torne mais igualmente distribuída). Outros países deram grandes passos no progresso social antes de envelhecerem. O Brasil fez poucos avanços antes de envelhecer. E, mais importante, a transição demográfica mais profunda ainda não chegou.

 

Do que depende o futuro do nosso envelhecimento?

 

Para que o Brasil tenha um futuro de envelhecimento sustentável, o ponto de partida deve ser que o futuro do nosso envelhecimento depende do futuro envelhecimento dos outros. É bem simples: o futuro do envelhecimento para o Brasil será definido pelos níveis de justiça mostrados a todos os brasileiros ao longo de suas vidas.

 

O envelhecimento é um processo relacional dinâmico. Um curso de vida marcado por necessidades não satisfeitas, acesso limitado ou exclusão absoluta acumula desvantagens que, por sua vez, se amplificam na velhice. Uma vida mais velha e danificada é uma tragédia pessoal. Muitas vidas danificadas são um profundo desastre social, com consequências muito profundas para todos nós.

 

A classe social, o gênero e a educação são determinantes essenciais na construção da longevidade brasileira, e a discriminação baseada na cor da pele ou etnia permeia todos os aspectos. Os resultados da tese de doutorado em Saúde Pública do fisioterapeuta Alexandre da Silva — apresentada no último Fórum Internacional da Longevidade — mostram que, mesmo quando fatores como sexo, renda, escolaridade, estado civil e ocupação são levados em consideração, a raça e a cor da pele continuam sendo um indicador significativo da desigualdade no Brasil.

 

Os idosos de cor sofrem de deficiências funcionais prematuras e outros resultados negativos (como barreiras no acesso aos serviços). Quanto mais escura a cor da pele, mais pronunciados são esses resultados.



Brasileiros negros só alcançarão igualdade de renda com brasileiros brancos, em média, em 2089

Em outras palavras, para um jovem negro brasileiro, hoje, é improvável haver paridade de rendimento na sua vida ativa, se as taxas continuarem como atualmente.

 

Desde o nascimento, pressupostos baseados em gênero informam o curso da vida, e criam riscos e oportunidades para mulheres e homens. Como na maioria dos outros países, a face do envelhecimento no Brasil continuará sendo majoritariamente feminina, pois as mulheres tendem a sobreviver mais que homens. Dadas as cargas impostas às mulheres, no entanto, há pouca indicação de que suas vidas mais longas serão vidas melhores, e há algumas evidências que sugerem o contrário.

 

De acordo com o “Relatório Mulheres, Empresas e o Direito”, publicado pelo Banco Mundial em fevereiro de 2019, o Brasil ocupa o 70º lugar no índice que mede a diferença de gênero no tratamento jurídico.



As mulheres brasileiras só alcançarão paridade de renda com os homens brasileiros após 2047

Em outras palavras, uma jovem brasileira, hoje, pode esperar ter um salário igual pelo mesmo trabalho apenas quando ela estiver chegando muito perto da aposentadoria. Conforme dito pela presidenta interina do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, “a igualdade de gênero é um componente crítico do crescimento econômico. Metade da população global é formada por mulheres, e nós temos um papel em criar sociedades mais prósperas”. Eu acrescentaria que o espaço limitante para as mulheres leva a uma velhice empobrecida.

 

Não é novidade para a maioria das pessoas que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo – na verdade, o Brasil se classificou do 10º ao 9º lugar no ranking global de desigualdade de renda em 2017. Os 5% que representam os brasileiros mais ricos têm uma renda proporcional aos dos 95% restantes dos brasileiros. Além disso, essa situação está piorando, e não melhorando.

 

 

Essa desigualdade é exacerbada por uma carga tributária desproporcionalmente pesada para os brasileiros mais pobres (altos impostos sobre bens e serviços essenciais) e mais leve para os brasileiros mais ricos (baixos impostos sobre bens), e por um sistema de seguridade social que é fortemente ponderada em favor dos já privilegiados — como as pensões excessivamente generosas do setor público.

 

Desigualdade e injustiça social não estão apenas contaminando nosso presente, elas estão definindo o futuro do envelhecimento brasileiro. Nós negamos a plena cidadania dos outros por nossa própria conta e risco.

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