Saúde: uma meta individual, um compromisso de todos

Estratégias de promoção da saúde populacional passam também pela redução de fatores de risco ambientais e comportamentais.

07/04/2019 - por Alexandre Kalache



Quando falamos em saúde, temos que lembrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a define como “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Ela pode ser comparada a um fundo de investimento que continua a pagar dividendos ao longo da vida.

 

De um modo geral, quanto mais cedo esse investimento começar, mais lucrativos serão os retornos. Mas, nunca é tarde demais para se beneficiar da adoção de mudanças mais saudáveis ​​na vida — mesmo em idades muito avançadas.

 

 

A frase que talvez mais me inspirou durante minha vida profissional faz parte da Carta de Ottawa sobre Promoção de Saúde. Segundo ela, a saúde é criada e vivida pelas pessoas dentro dos ambientes de sua vida cotidiana: onde aprendem, trabalham, brincam e amam. Ou seja, temos (eu, você e qualquer outra pessoa) a responsabilidade pessoal de buscar orientações mais saudáveis.

 

Acontece que as oportunidades de reconhecer e seguir essas orientações não são as mesmas para todos.

 

Escolhas nem sempre individuais

Gráfico Abordagem do curso de vida em relação ao envelhecimento ativo, inspirado no trabalho de Kalache e Kickbusch (1997) e desenvolvido sob orientação do ILC-BR

 

Os indivíduos que cresceram em bairros desfavorecidos ou violentos, com nutrição inadequada e acesso limitado a uma educação de qualidade, não podem ser responsabilizados pela  inviabilidade de alcançar e manter a capacidade funcional ideal ao longo da vida. Fatores como estresse e perigo tornam muito mais difícil evitar resultados negativos na saúde.

 

Um bom autocuidado requer mais do que o conhecimento pessoal em saúde. Também requer uma ampla ecologia de saúde no nível da comunidade. Coletivamente, devemos fazer as escolhas saudáveis, as escolhas fáceis. E elas devem ser para todos.

 

A capacidade funcional física, definida por fatores como força muscular, e capacidade respiratória e cardiovascular, sofre um declínio inevitável, claramente influenciado pela idade, mas ainda mais impactado pelas circunstâncias da vida e pelas variáveis ​​externas, todas elas modificáveis.

 

Quanto mais cedo você investir na saúde, melhor. Mas, nunca é tarde demais

Se a predominância dessas condições pessoais e externas for favorável, a taxa de declínio será gradual, e o indivíduo continuará a desempenhar bem as suas atividades.

 

Dados do estudo da Carga Global de Doenças (GBD, na sigla em inglês) mostram que a expectativa de vida saudável aumentou mais lentamente do que a expectativa de vida geral durante os últimos 20 anos, em todo o mundo. Para cada ano de vida adquirido a partir dos 50 anos, uma pessoa alcança apenas cerca de 9,5 meses de vida saudável.

 

Essa realidade, no entanto, não é inevitável. Pesquisas mostram que, a partir dos 65 anos, no Reino Unido, a expectativa de vida saudável aumenta mais ou menos no mesmo ritmo que a expectativa de vida. Um cenário semelhante existe em todos os 27 países da União Europeia. Os dados mostram claramente que a morbidade, ou seja, o período em que vivemos com problemas de saúde, pode ser reduzida se observadas as condições adequadas a tempo certos.

 

Portanto, é de suma importância que os sistemas de saúde se concentrem não apenas na redução das taxas de mortalidade, mas também na redução das taxas de morbidade. Uma meta de capacidade funcional ótima (física e social) para todos, em todas as idades, deve impulsionar a política de saúde.

 

Mesmo assim, podemos esperar que, à medida que mais pessoas alcancem idades mais avançadas, um grande número delas também experimentará incapacidades. O sistema de saúde brasileiro enfrenta um duplo ônus: taxas crescentes de doenças crônicas não transmissíveis (como doenças cardiovasculares, câncer e diabetes), juntamente à presença contínua de doenças transmissíveis. No entanto, nosso sistema de saúde atual foi projetado antes das transições demográficas e epidemiológicas, e tende a tratar doenças crônicas da mesma forma que as condições agudas. Ora, não se pode tratar de uma hipertensão ou diabetes como se fosse um caso de catapora ou amigdalite. Sem uma grande mudança de paradigma, nosso sistema de saúde vai se tornar cada vez mais ineficaz e caro, ao mesmo tempo em que a incidência de doenças crônicas segue aumentando mais e mais.

 

Saúde, um assunto para todos

 

Por mais importante que sejam, os serviços de saúde desempenham um papel relativamente pequeno na determinação dos resultados gerais de saúde. Na verdade, a OMS, em seus estudos sobre os determinantes sociais de saúde, destaca que os serviços sanitários representam não mais que 10% dos nossos resultados de saúde, ao contrário de quase 20% gerados por fatores ambientais, e mais de 50% decorrentes de variáveis ​​comportamentais ligadas a nossos estilos e nossas condições de vida.

 

É essencial que as estratégias de saúde devam atingir diferentes setores.

Como grande parte do nosso estado de saúde é estabelecido em outros domínios, é essencial que as estratégias de saúde devam atingir várias jurisdições. Reforçando a necessidade de coordenação entre os departamentos do governo, o ex-presidente da Associação Médica Mundial, Sir Michael Marmot, observou corretamente que “todo ministro é um ministro da saúde”.

 

Isso também me leva a um ponto importante que não canso de levantar: a intersetorialidade. Todos os setores têm seu papel, não só o setor público. Quando falamos sobre saúde, claro, é indispensável que a saúde suplementar também faça as suas contribuições para melhorar a saúde populacional.

 

Fatores de risco ambientais e comportamentais precisam ser drasticamente reduzidos. Não é difícil reconhecer os ambientes insalubres no Brasil, e sabemos definir o que caracteriza um ambiente saudável. As intervenções protetoras devem ser vigorosamente empregadas para garantir que as doenças crônicas e o declínio funcional sejam prevenidos ou adiados. Uma ênfase muito maior deve ser dada à promoção da saúde e à prevenção, à detecção e ao tratamento da doença, de maneira pontual.

 

A mudança necessária no paradigma depende de dois componentes críticos:

 

  • Um sistema focado na atenção básica, baseada na comunidade que forneça cuidados e assegure sua coordenação ao longo do tempo.
  • Um quadro de profissionais de saúde treinados em aspectos de saúde relacionados ao envelhecimento e preparados para responder às mudanças nas necessidades de saúde durante toda a vida.

 

Quando as pessoas necessitam de cuidados, eles devem ser baseados em evidência, integrados e centrados na pessoa, com forte ênfase na manutenção da mais alta capacidade funcional e da qualidade de vida. Sabemos o que é necessário para melhorar o estado de saúde de todos os brasileiros. Tudo que precisamos é de determinação em fazê-lo.

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