Você vai precisar de resiliência e dos idosos para sair dessa crise

O efeito da Covid-19 em nossas vidas dependerá da maneira como vamos reagir à pandemia. Resiliência e a experiência dos mais velhos serão fundamentais

13/05/2020 - por Alexandre Kalache



Nestes tempos de pandemia, de distanciamento social e de confinamento, a gente vai tendo tempo para pensar, passear pelo passado, refletir.

 

Assim, começo esta coluna, relembrando um filme que eu vi há muitos anos — quando ainda era estudante de medicina. Um filme francês que me marcou muito, ao longo da vida pensei nele várias vezes.

 

Ele começava com uma grande família, jantando, no fim dos anos 1930. O rádio ligado anunciava o começo da Segunda Guerra Mundial. Todos pararam e por uns instantes prestaram atenção no noticiário. Fizeram alguns comentários e seguiram jantando, conversando sobre as trivialidades do dia.

 

O filme seguia com algumas cenas dos horrores da guerra e prossegue acompanhando cada um dos membros da família, e como ela impacta a vida de cada um ao longo das três décadas subsequentes.

 

 

 

Não me lembro de detalhes e sim da mensagem central.

 

Daquela família, alguns seguiram suas vidas bem, outros sucumbiram. Uma das filhas conseguiu escapar e foi para os Estados Unidos seguir carreira acadêmica. Outra mergulha em depressão da qual nunca se recupera. Um irmão vai pra Inglaterra, recusando-se a falar da Guerra. Os pais faleceram em um bombardeio.

 

Mas o que mais gravei foi a relação da filha mais nova com o avô. Eles ingressaram na Resistência e sobreviveram com um propósito. Jamais deixaram que as lições de tanto sofrimento fossem esquecidas.

 

Passada a Guerra se dedicaram a trabalhos voluntários. Ele indo para escolas, pregava contra a intolerância, contra o antissemitismo. A jovem relembrava a importância do trabalho da Resistência, de como tinha sido importante manter a esperança, de manter a comunidade coesa, de dar um salto por cima da catástrofe.

 

O efeito da Covid-19 em nossas vidas

 

Eu também jantava com amigos quando a televisão noticiou o início da pandemia na China. Por conta de minha formação médica logo pensei: “meu Deus, quais são as consequências que esta notícia pode trazer para as nossas vidas? Será um evento apocalíptico? Terá um impacto enorme na vida de cada um de nós?”

 

Está tendo. Negar isso seria brincar de avestruz. Mas, como no filme, a forma como nós reagimos definirá o efeito da Covid-19 em nossas vidas.

 

Em resposta à pandemia podemos dar um salto qualitativo, encontrar uma saída pelo lado ou nos descontrolarmos sofrendo traumas perenes.

 

Esse vírus é poderoso e não temos ainda capacidade de controlá-lo. Há muita incerteza, medo, incógnitas, ameaças.  Cada um de nós precisará, individualmente, refletir sobre o que mudou e, coletivamente, transformar a sociedade para melhor.

 

Como no filme, não temos controle sobre algo tão transcendente. Mas cabe a cada um de nós reagir de forma menos individualista, egocêntrica, muito mais solidária para minimizar os efeitos. Com mais próposito para um bem comum. Como aquele avô e sua neta, com quem colaborou e assim deram o salto por cima.

 

Cabe a cada um de nós reagir de forma menos individualista

A importância da resiliência nesses momentos

 

Tudo isso me remete ao XII Fórum da Longevidade Bradesco Seguros, em 2017, no qual falamos muito sobre resiliência. Essa é a palavra que me  ocorre recorrentemente quando penso no que estamos vivendo de forma transplanetária. Nossa resiliência nos fará reagir de uma forma ou de outra.

 

Afinal o que é a resiliência? É nós termos acesso às reservas necessárias a adaptação ao enfrentamento, ao crescimento, nosso, individual, face aos desafios impostos pela vida.

 

A Covid-19, sem dúvida, é um imenso desafio que a vida nos está  impondo. Estamos sofrendo muita insegurança, com oportunidades limitadas, com angústias indivíduais e coletivas.

 

Lidar com a incerteza, com a possibilidade de perdas econômicas, tudo isso tem um efeito grande em cada um de nós.

 

Um novo mantra para a nossa sociedade ocidental

 

Mas existe aí um convite para que pensemos no que está encapsulado na língua chinesa, em que crise e oportunidade não são distinguíveis. Para alguns não haverá como sair desta crise. Estou falando das consequências, de você só interiorizar coisas negativas.

 

Para outros, virá à cabeça uma oportunidade, de rever valores, propósitos, perspectivas, de pensar na forma como vivemos, do que se quer da vida, de nossa missão. De como  aproveitar esses momentos de isolamento para introspecção,  buscar forças dentro de si para poder sair da crise melhor do que quando nela entrou.

 

Como sociedade eu acredito que aquele mantra disseminado a partir do  Vale do Silício que tanto influenciou nossa cultura ocidental precisará ser revisado. Refiro-me ao mantra, em inglês: “Move fast and break things”. “Mova-se rápido, não se importe com o que você for quebrando a sua volta. Corra,  vá, já!”.

 

“Mova-se  com mais calma, e no processo vá consertando as coisas a sua volta”

A pandemia vai nos fazer pensar diferente, creio e espero.  Um outro mantra. “Mova-se  com mais calma, e no processo vá consertando as coisas a sua volta”. Demonstrando mais empatia. Mais consideração com os outros. Ela, talvez, nos ensine a pensar: “Meu Deus! não seria bom se a gente pudesse seguir a vida de uma forma diferente?”

 

A importância dos idosos no processo de retomada

 

Com a mesma pegada refleti sobre isso ler uma entrevista sobre tolerância religiosa com Wanda d’Omulú. Ela é uma Ialorixá e educadora, uma mulher já nos seus 60 anos, respeitada muito além de sua comunidade. “Não podemos voltar ao normal, porque o normal era justamente o problema”, disse ela ao jornal O Globo. Outra fala interessante é essa: “Em uma de nossas histórias, (referindo-se à herança de sua religião de matriz africana), uma das divindades, o Oxaguian, jovem, vem e quebra tudo. Depois chega Oxalufan, mais velho, detalhista e vai calmamente botando tudo no lugar.”

 

Será exatamente esse o papel nós, os mais velhos, temos. Somos os mais vulneráveis, mas somos também os mais resilientes, já passamos por boas.

 

Quando eu dirigi o departamento de envelhecimento e saúde da OMS, conduzi, em 2006, 16 estudos sobre idosos em situações de emergência e crise (como tsunamis, terremotos, enchentes, secas e guerras). Os resultados invariavelmente mostravam os idosos entre os mais vulneráveis, junto às crianças, mas também se mostraram os mais resilientes.

 

Eram deles com que a comunidade iria contar para o processo de reconstrução, eram deles as vozes que iam fazer a sociedade mais coesa, eram eles que podiam ver a luz no final do túnel. Que aquietavam, que traziam uma palavra de conforto, que podiam afagar, que podiam abraçar e fazer com que a resiliência daquela comunidade pudesse ser reconstruída.

 

É através disso que nós conseguimos uma resiliência social, da sociedade como um todo, da resiliência de cada um de nós, contando com essa sabedoria e experiencia acumulada pelos mais velhos, que tanto ajudam  no caminho da reconstrução.  

 

Vai passar!! Esse distanciamento social está sendo necessário. Não só para diminuir as estatísticas. É, sobretudo, para que a gente possa resguardar o que há de mais precioso em uma sociedade: seus serviços de saúde e a vida das pessoas.

 

Depois a gente vai se reerguer e, se formos todos nós individualmente mais resilientes, pensaremos em nossos propósitos e valores. Sairemos assim, como sociedade, mais resiliente.

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