Determinantes culturais: favoráveis? Nem sempre

Valores culturais influenciam os determinantes dos quais dependem um envelhecimento ativo podendo facilitá-los ou atuar como barreiras ao longo de todo o curso de vida

por Alexandre Kalache



A cultura é um dos determinantes transversais do envelhecimento ativo (saiba mais sobre o tema na minha primeira coluna). Ela molda todos os aspectos de nossas vidas – como e quando nos alimentamos, a forma com que percebemos e lidamos com o corpo, as fontes de informações, a natureza do trabalho, as práticas e os comportamentos adotados para manter a saúde.

 

A cultura também determina os papéis sociais de homens e mulheres, influenciando múltiplos aspectos, tais como suas percepções sobre classe social, idade, expectativas perante a vida e noções de reconhecimento e pertencimento ligados a determinadas etnias. Ela também impacta fortemente os relacionamentos entre as pessoas (família, trabalho e comunidade), onde e com quem vivemos e as expectativas em relação ao cuidado com o outro.

 

É fácil perceber como a cultura tem muita relação com os quatro pilares do envelhecimento ativo:

 

  • Na saúde, ela está presente na maneira como nos comportamos e nos hábitos que temos em relação à saúde.
  • No conhecimento, os valores culturais se manifestam nas oportunidades de aprendizagem que temos, assim como influenciam grandemente a que informação e conhecimento acessamos.
  • Na participação, o êxito em continuar ativo e relevante para a sociedade é resultado dos dois pilares anteriores aliados a valores culturais que valorizem e respeitem mais as pessoas à medida que envelhecem.
  • Na segurança/proteção, pois são os fatores culturais que nos fazem sentir protegidos, de termos ciência de que não seremos abandonados se, ao envelhecermos, nos tornarmos frágeis, enfermos e dependentes.

Quando falamos de cultura, nos referimos também a significados compartilhados no âmbito da sociedade onde vivemos e com a qual nos envolvemos historicamente por meio de tradições, expressões artísticas, idiomas, rituais, crenças religiosas e expectativas em relação a indivíduos ou comportamentos de grupos específicos. É essa cultura compartilhada que provê os indivíduos com um sentido de identidade, de continuidade histórica e intergeracional, de inclusão, serve de amparo e/ou como argumento de resignação em tempos de dificuldade.

 

O outro lado

Em contrapartida, concomitantemente, a cultura que dá sustento e alívio a muitos, transforma-se em obstáculo para outros, estigmatizando, excluindo, levando ao isolamento. O empoderamento de alguns pode levar ao enfraquecimento de outros, a quem se negam oportunidades ao longo da vida, resultando em um processo de envelhecimento com dificuldades que, com grande frequência transcendem a capacidade individual de superá-los.

 

Pertencer a uma etnia discriminada ou religião que é alvo de perseguições, expressar orientação sexual estigmatizada e mesmo atingir idade mais avançada, principalmente em contextos em que é sinônimo de fardo e desvalorizada; tudo isso pode ter um impacto devastador para a qualidade de vida de qualquer indivíduo ou de diversos coletivos.

 

A cultura em que estamos inseridos, portanto, proporciona ou nega oportunidades para manter a qualidade de vida – da infância à velhice. Com o aumento da expectativa de vida e levando em conta os obstáculos do caminho de cada um, a questão não é simplesmente resistir até chegar ao fim, e sim caminhar e alcançar bem o final. O que requer, mais do que lidar com a cultura como um determinante, buscar oportunidades, aproveitar habilidades e conhecimentos e desenvolver estratégias. Só assim, consciente e em paz com o processo, será possível levar uma vida mais equilibrada e longeva.

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