7 poemas para conhecer a obra de Castro Alves

Um de nossos maiores poetas fez fama cantando seus amores e lutando contra a escravidão.

13/03/2020



No dia 14 de março, celebra-se o aniversário de um dos maiores poetas do Brasil, o baiano Antônio de Castro Alves, nascido em 1847, no povoado de Curralinho. E em 2020, seu único livro publicado em vida, "Espumas Flutuantes", comemora 150 anos de publicação — o segundo, “Os Escravos”, foi impresso após sua morte.

 

Castro Alves é considerado um dos nossos poetas mais importantes, por duas razões. Além do talento literário para versejar sobre o amor, a solidão e o medo da morte, ele se engajou nas lutas sociais de seu tempo, especialmente na campanha pela abolição da escravidão.

 

 

 

Ele fez parte da última geração de poetas românticos, os condoreiros, que lutavam por causas progressistas e acreditavam poder mudar o país com a força de sua poesia.

 

Os poemas de Castro Alves eram feitos para serem recitados com vigor, e o mais famoso deles, “O Navio Negreiro”, foi decorado e declamado por toda parte, especialmente na campanha pela abolição da escravidão no Brasil — que ele não chegaria a ver acontecer, pois morreu em 1871, aos 24 anos, e a Lei Áurea só viria em 1888. Poucos meses depois da sua morte, foi assinada a Lei do Ventre Livre, que libertava as crianças nascidas de negros escravizados.

 

“Ele é o poeta da liberdade, e não da escravidão.”

Antonio Carlos Secchin, poeta e crítico literário

“Castro Alves sempre foi muito progressista e foi o primeiro poeta a combater a escravidão. Por isso, ficou conhecido como o poeta dos escravizados, o que é um equívoco: ele é o poeta da liberdade, e não da escravidão”, aponta o poeta e crítico literário Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e organizador de uma antologia do poeta baiano.

 

Depois de Castro Alves, muitos outros poetas escreveram sobre o abolicionismo, mas Secchin pondera que sua obra foi imortalizada não pelo tema, e sim pela qualidade literária e pela criatividade.

 

"Seu diferencial é a qualidade de seus versos, sua capacidade de criar imagens originais, seu domínio técnico, fugindo do lugar comum”, afirma Secchin. “Por isso, sempre foi celebrado, pelos companheiros, pela imprensa. Não foi um poeta sofredor, desajustado. Em sua curta vida, foi elogiado por grandes figuras da época, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e José de Alencar.”

 

Os poemas abolicionistas acabaram se tornando os mais conhecidos, mas o jovem Castro Alves cantou muito mais os amores e temores que viveu.

 

Desde os 17 anos, teve hemoptises (tosse com sangue dos pulmões), e passou bastante tempo tentando se recuperar de uma tuberculose. Nada disso, porém, impediu que ele vivesse intensos casos amorosos com diferentes mulheres e declamasse em versos seus arroubos e sentimentos.

 

Hoje, há quem veja em seus poemas um certo tom de grandiosidade exagerada. Isso acontece porque Castro Alves escreveu essas poesias para serem declamadas em praça pública ou nos salões, e não para serem lidas. “Para se comunicar mais eficientemente, ele se vale da oratória, da ênfase e de um repertório diferenciado de palavras”, explica o especialista.

 

Quem ler “Espumas Flutuantes”, conta Secchin, vai encontrar muito lirismo em versos de amor, mas com um toque um pouco mais apimentado do que na obra de outros românticos. “Ele já tem uma nota diferente, uma poesia de amor que fala da completude não só espiritual, mas também física, com um certo erotismo.”

 

E você, já se aventurou pela obra de Castro Alves? Aproveitando o aniversário do poeta, o Viva a Longevidade pediu a Secchin para selecionar alguns de seus poemas mais marcantes, que mostram tanto seu lado lírico e amoroso como seu espírito abolicionista. Que tal ler alguns deles em voz alta, como o poeta faria?


“O Navio Negreiro”

Em seis partes, o poema denuncia o sofrimento dos negros em um navio com rumo ao Brasil: 

“Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!”

“Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...”

 

Leia “O Navio Negreiro”


“O Adeus de Teresa”

O poeta canta as várias despedidas a uma de suas amadas, com quem tinha encontros ocasionais, mas intensos:

“A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus...

E amamos juntos...

E depois na sala ‘Adeus’ eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: ‘adeus.’”

 

Leia “O Adeus de Teresa”  


“O Gondoleiro do Amor”

Este canto a uma mulher amada é um exemplo clássico do lirismo romântico de Castro Alves:

“Teus olhos são negros, negros,

Como as noites sem luar...

São ardentes, são profundos,

Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,

Da vida boiando à flor,

Douram teus olhos a fronte

Do gondoleiro do amor.”

 

Leia “O Gondoleiro do Amor”


“Mocidade e Morte”

Uma ode à vida quando o poeta temia estar perto de sua morte:

“Oh! Eu quero viver, beber perfumes

Na flor silvestre, que embalsama os ares;

Ver minh'alma adejar pelo infinito,

Qual branca vela n'amplidão dos mares.

No seio da mulher há tanto aroma...

Nos seus beijos de fogo há tanta vida...

Árabe errante, vou dormir à tarde

A sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma vez responde-me sombria:

Terás o sono sob a lájea fria.”

 

Leia “Mocidade e Morte”


“Adeus, Meu Canto”

Neste longo poema, Castro Alves fala sobre o papel social do poeta:

“Adeus, meu canto! Na revolta praça

Ruge o clarim tremendo da batalha.

Águia — talvez as asas te espedacem,

Bandeira — talvez rasgue-te a metralha”

“Poeta, sábio, selvagem,

Vós sois a santa equipagem

Da nau da civilização!

Marinheiro, — sobe aos mastros,

Piloto, — estuda nos astros,

Gajeiro, — olha a cerração!”

 

Leia “Adeus, Meu Canto”


“Vozes D’África”

Este poema engajado é um lamento sobre a escravização e clama pelo fim dos abusos:

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?...”

 

Leia “Vozes D’África”


“Adormecida”

O poeta observa uma moça dormindo e relata a cena com um erotismo sutil:

“De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E de leve oscilando ao tom das auras

Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava... a flor beijava-a...

Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...”

 

Leia “Adormecida”


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