“Só 40% dos adultos são treinados em algum momento da vida”

Alessia Forti, economista da OCDE e especialista em educação de adultos, lista os desafios e as oportunidades da atualização profissional de quem está envelhecendo

12/11/2019



Urgência do aprendizado

 

“O aprendizado de adultos é uma questão urgente porque nossa sociedade tem não só uma grande tendência ao envelhecimento da população, mas também outras, como as mudanças tecnológicas e a globalização, que aumentam a necessidade do retreinamento de pessoas. E o Brasil não é exceção: aqui, esse envelhecimento vai acontecer em ritmo mais rápido do que em outros países. Como as pessoas vivem mais, provavelmente vão trabalhar mais, e por isso precisarão se manter empregáveis em uma vida mais longa.”

 

 

 

 

Empregos x robôs

 

“O envelhecimento da população está mudando significativamente as profissões e as competências necessárias. As novas tecnologias também estão afetando o mundo do trabalho. A oferta global de robôs aumentou 3 vezes na última década e vai aumentar mais nos próximos anos. Na OCDE, estimamos que 14% dos empregos podem desaparecer como resultado da automação, mas que 32% dos empregos podem mudar significativamente. Não vão desaparecer, mas vão mudar substancialmente. As pessoas que estão na força de trabalho hoje precisam ser retreinadas. A questão chave não é o desemprego em massa, e sim a necessidade de acompanhar os trabalhadores e ensiná-los a trabalhar com as tecnologias e as novas máquinas.”

 

Faltam profissionais da saúde

“A necessidade de habilidades também está mudando. No banco de dados de habilidades da OCDE para empregos, que aponta quais habilidades são escassas e mais difíceis de encontrar no mercado, vemos que no Brasil as ocupações que mais estão em falta são os cuidadores e os profissionais da saúde. Com o envelhecimento da população, esses trabalhos vão estão mais escassos no futuro. Ensinar os adultos pode ajudar no retreinamento para as profissões necessárias e reequilibrar essa situação.”

 

Barreiras ao aprendizado

“Nos países da OCDE, apenas 40% dos adultos são treinados em algum momento da sua vida. Isso não é muito. Há muitas barreiras, como a falta de motivação ou disposição de treinar. Metade deles não foram e não querem ser treinados. Há muitas razões para isso: alguns acham que a qualidade do ensino é ruim, que não é útil ou não estão cientes dos benefícios do aprendizado. Mas mesmo os adultos que estão dispostos a aprender não o fazem por falta de tempo. As pessoas estão muito ocupadas com trabalho e a família. Outra barreira chave é a falta de dinheiro, o custo do material e o custo de oportunidade de não trabalhar.”

 

Pequenas treinam menos

“Do lado dos empregadores, a boa notícia é que na última década a parcela de empresas europeias que oferecem treinamento melhorou significativamente. A má notícia é que muitas ainda não treinam funcionários, e isso se aplica mais às pequenas. Nesse porte, menos de 60% treinam, pois preferem recrutar novos empregados em vez de treinar os existentes. Preferem dirigir os investimentos aos mais jovens e aos que têm mais competências, dos quais esperam mais retorno porque vão ficar mais tempo na empresa.”

 

Grupos em desvantagem

“Os grupos em desvantagem são os mais afetados pelas mudanças, por isso o treinamento de adultos é importante para eles. É o grupo dos mais velhos, que vão ter qualificações desatualizadas e precisam atualizar o que aprenderam na escola, dos que têm baixa habilidade, dos trabalhadores na área de automação, cujo emprego está em alto risco, por isso precisam ser retreinados. Esses são os grupos que menos recebem treinamento. As pessoas mais velhas participam de menos treinamento que os jovens, que têm probabilidade duas vezes maior de receber treinamento que os mais velhos.”

 

Desemprego na velhice

“Sabemos que as pessoas mais velhas adquiriram muito conhecimento e experiência em suas carreiras, mas têm nível mais baixo de qualificação, e é menos provável que tenham diploma se comparados aos jovens. Eles também têm menos habilidades em tecnologia da informação. Outro desafio chave é que mantê-los no mercado de trabalho. No Japão e na Lituânia, os mais velhos são 20% da população desempregada. No Brasil o número é menor, mas houve um aumento na última década. As pessoas mais velhas devem ser um grupo-alvo do treinamento, para atualizar suas habilidades e permanecerem empregáveis no mercado.”

 

O que pode ser feito

“Existem medidas e políticas públicas que podem ser estabelecidas para resolver o problema. OCDE tem 5 áreas de atuação: melhorar a cobertura e a inclusão, alinhar o treinamento das habilidades com as necessidades do mercado, melhorar a qualidade e o impacto do aprendizado, fazer com que o ensino seja financeiramente sustentável, pois não ter dinheiro não deveria afastar as pessoas do treinamento, e fortalecer os mecanismos de governança para garantir que ninguém fique de fora.”


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