Fórum da Longevidade discute como será o futuro do envelhecimento

Em evento patrocinado pela Bradesco Seguros, especialistas mostram como os avanços da medicina e a preparação pessoal nos ajudarão a reinventar a velhice

27/11/2018



Como será o amanhã de um país que está envelhecendo rapidamente e que, em 2030 (ou seja, daqui a 12 anos!), já terá mais idosos do que crianças? Essa foi a provocação feita a especialistas das mais variadas áreas — da gerontologia às finanças — na 13ª edição do Fórum da Longevidade, patrocinado pela Bradesco Seguros e realizado no dia 21 de novembro, em São Paulo.

 

No decorrer de todo o dia, 10 palestrantes falaram sobre as perspectivas do envelhecimento no Brasil, mostraram os avanços da medicina e da tecnologia que nos ajudarão a ter uma velhice melhor e ensinaram a plateia a preparar a mente e as finanças para um novo estilo de vida, em que se reinventar será a chave para ter uma vida feliz e independente depois dos 60 anos.

 

Até mesmo uma nova palavra foi apresentada ao público que compareceu ao Fórum: “longeratividade”, ou seja, uma longevidade pra lá de ativa, com muitos planos e sonhos, como mostra uma pesquisa apresentada pelo Instituto Locomotiva. No final, uma homenageada muito especial contou como mantém, aos 85 anos, a mesma alegria e vontade de viver e trabalhar que tinha em sua mocidade.

 

A revolução da longevidade

O médico gerontólogo Alexandre Kalache, especialista em longevidade e colunista do Viva a Longevidade, abriu o evento mostrando como o Brasil passa por uma revolução quando se fala de envelhecimento. “Em 2050, 31% da população vai ter mais de 60 anos. Vamos fazer, em uma geração, o que os países mais velhos do mundo fizeram ao longo de séculos”, explicou. Por isso, teremos de repensar nosso curso de vida: em vez de dividi-la em fases que se sucedem ― estudar, trabalhar e se aposentar ―, vamos viver todas essas experiências ao mesmo tempo. “Como o mundo está em transformação, vamos ter de construir uma vida de aprendizado constante.”

 

 

Uma nova vida em cada idade

Se já é uma certeza que podemos, sim, chegar aos 100 anos, a grande questão passa a ser se desejamos chegar lá ― e de que forma —, apontou a especialista em gerontologia, Denise Mazzaferro, coautora do livro “Longevidade: os desafios e as oportunidades de se reinventar”. Para ela, quanto mais vivermos, mais passaremos por transformações, como mudar de carreira ou tentar um novo tipo de relacionamento amoroso, e devemos nos preparar psicologicamente para essas transições. “Não é só direito do jovem experimentar novas habilidades”, afirma Mazzaferro, que considera o autoconhecimento fundamental nesse processo. “Quando nos reinventamos, é preciso saber quem nós somos.”

 

 

Genética x estilo de vida

Como pode um rapaz de 15 anos ter as rugas e a cabeça calva de um senhor de idade avançada? Trata-se de um jovem geneticamente idoso, com uma mutação que leva ao envelhecimento precoce, explica a geneticista Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora e professora da USP, ao mostrar uma foto em que uma mãe abraça seu filho adolescente. "Isso é uma porta de entrada para entender o envelhecimento", completa. Mas desvendar os segredos do DNA não basta para levarmos uma vida mais longeva e saudável. As pesquisas com o genoma podem ajudar os médicos a prever doenças e desenhar terapias mais eficientes, mas ainda temos de fazer a nossa parte e adotar um estilo de vida saudável, o que nos ajuda a retardar o aparecimento de doenças que estamos geneticamente predispostos a ter. "Nós somos um produto do nosso genoma, sim, mas do nosso estilo de vida também."

 

 

Inteligência coletiva a favor dos mais velhos

Como preparar o mundo para ser um lugar amigável a uma população cada vez mais velha? “Para um novo envelhecimento, precisamos ter uma mentalidade diferente. Como dizia Albert Einstein, não podemos resolver os problemas com o mesmo pensamento que os criou”, reflete Stephen Johnston, um dos fundadores da plataforma global Aging2.0, que reúne diferentes pessoas para pensar em soluções para melhorar a vida dos mais velhos em diversos pontos, desde saúde do cérebro até finanças. Isso inclui, por exemplo, criar um carrinho de compras funcional para os idosos ou um serviço de compartilhamento de quartos vagos em casa com pessoas mais jovens. “Nós não precisamos pensar apenas em inovar produtos e serviços, e sim em inovar o sistema, em criar uma maneira de pensar, para que a sociedade esteja apta para uma nova geração.”

 

 

Inovação e bem-estar

O que a tecnologia reserva para o nosso futuro? A inteligência — e as profissões que dependem só dela — vai ficar a cargo de cérebros eletrônicos que facilmente aprendem funções automáticas, como os cálculos, prevê o jornalista Pedro Doria, especialista em inovação e tendências do mundo digital. Máquinas que aprendem tarefas vão nos ajudar a pedir socorro quando cairmos, prever um aumento de pressão ou iluminar o caminho de quem vai ao banheiro de madrugada. E o mapeamento genético nos ajudará a prever algumas doenças que podem ameaçar nosso bem-estar na velhice. “A maneira como a tecnologia está se desenvolvendo faz com que consigamos levar esta vida para bem mais adiante, com mais saúde. A ideia de chegarmos aos 100 anos lúcidos, com capacidade de nos mexermos, resolvendo as partes motoras e cognitivas, é realmente atraente.”



“A ideia de chegar aos 100 anos lúcidos, com capacidade de nos mexermos, resolvendo as partes motoras e cognitivas, é realmente atraente.”

Pedro Doria

 

Educação para o envelhecer

Ao contrário do que muita gente acredita, o envelhecimento começa bem cedo ― aos 28 anos —, revela a geriatra e clínica geral Maísa Kairalla, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo. “As pesquisas mostram que viveremos 75 anos, mas perderemos a qualidade de vida aos 65”, diz. Ou seja, para chegar bem aos 60 anos, vamos precisar cuidar do corpo desde a juventude ― e conscientizar até mesmo as crianças sobre a importância de se cuidar bem. De acordo com a Dra. Kairalla, se fôssemos um carro, seria assim: “só 30% dos defeitos vêm de fábrica, ou seja, são a carga genética. Os outros 70% são a manutenção, que depende da gente.” No futuro, cuidar da saúde dos mais velhos não deve ser só uma responsabilidade dos geriatras, e sim de todos os médicos, que terão de estudar, em sua especialidade, quais são as particularidades do envelhecer, para entender melhor os problemas de saúde dos mais velhos.

 

 

Quem vai cuidar dos mais velhos?

“Não devemos culpabilizar o indivíduo que precisa de cuidado.”

Marília Berzins

Assim como ao nascer precisamos do cuidado de nossos pais, quando envelhecermos também necessitaremos de alguém que nos apoie, aponta Marília Berzins, Doutora em Saúde Pública pela USP, Mestre em Gerontologia pela PUC-SP e uma das líderes do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE). “Envelhecer com dignidade é um direito humano fundamental. Não devemos culpabilizar o indivíduo que precisa de cuidado.” Em sua fala, ela reforçou a importância de as políticas públicas preverem esse cuidado com os idosos, que não devem ser deixados a cargo apenas de suas famílias ― e, especificamente, só das mulheres. “Estamos avançando um pouco, porque existem casais que já dividem o cuidado dos filhos. Nesse sentido, o homem começa a treinar para um dia cuidar da esposa, da mãe, da sogra e de todos os que precisarem. É um processo de educação contínua.”

 

 

Planejando para uma aposentadoria tranquila

De saída, a jornalista Mara Luquet, especialista em investimentos e finanças pessoais ― e nossa colunista no Viva a Longevidade ―, já avisa: se você é daqueles que ficam esperando sobrar algum dinheiro para só depois poupar para a aposentadoria, não vai começar nunca. “O ponto de partida é aprender a fazer escolhas, esse é o ponto fundamental para todos nós, desde cedo", afirma. Seu conselho é definir, logo, do que podemos abrir mão no presente, em troca de uma velhice financeiramente tranquila. Ela também contou um caso curioso: na Inglaterra, as mulheres que trabalham estão tendo filhos aos 40 anos e, por isso, aos 20, já começam a fazer um plano de previdência para poder curtir a maternidade numa boa, quando os filhos chegarem. Como elas, todos devemos nos preparar para uma aposentadoria sem sustos. "Viver muito custa caro. A melhor coisa que você pode fazer por seu filho é não depender financeiramente dele [no futuro].”

 

 

A corrida populacional

O mundo hoje vive uma corrida populacional, na qual os países estão disputando como vão resolver os problemas ligados ao envelhecimento global, explica o jornalista Jorge Félix, especialista em demografia do envelhecimento. “A questão crucial é que o Brasil precisa de pesquisa para evoluir e atender às novas demandas”, afirma. E completa: “O envelhecer não é só custo, é uma fonte de riqueza.” Já as novas gerações terão de se planejar para viverem bem em um mundo mais velho. “Vejo que as pessoas planejam a questão financeira e depois não planejam como irão morar. Irá morar perto de quem? Como será sua casa? Como damos resposta antigas a todos os problemas novos, acho que as pessoas pensam essa questão da moradia de uma forma muito ligada ao passado, a outra realidade.”

 

 

Solidariedade entre as gerações

“Quero ver um futuro de cooperação, e não de ressentimentos, entre as gerações.”

Baronesa Sally Greengross

A primeira homenageada do dia foi a Baronesa Sally Greengross, diretora-executiva do Centro Internacional de Longevidade (ILC, na sigla em inglês) na Inglaterra e membro da Câmara dos Lordes no parlamento britânico. Ela recebeu uma menção honrosa por sua uma experiência de mais de 40 anos em questões ligadas ao envelhecimento saudável e a políticas para idosos. Em sua fala, convocou jovens e idosos a pensarem juntos em saídas para um envelhecimento sustentável. “A participação de todos é fundamental, porque os projetos só funcionam quando todos trabalham juntos. Com diferentes competências reunidas, podemos conseguir muito mais”, declarou. Para ela, idosos e jovens não devem concorrer pelas políticas públicas e pelos investimentos. “Quero ver um futuro de cooperação, e não de ressentimentos, entre as gerações. Se não nos ajustarmos para atender às necessidades da população, teremos imensos problemas. Na Inglaterra, a rainha Elizabeth costumava escrever cartões parabenizando quem chegava aos 100 anos. Hoje ela já não faz mais isso, porque sozinha não conseguiria dar conta.”

 

 

A cara da “longeratividade”

Essa palavra nova nasceu da junção de “longevidade” com “atividade” e é uma definição, criada pelo Instituto Locomotiva, para mostrar o retrato dos brasileiros com mais de 50 anos, que hoje chegam a 54 milhões, uma população equivalente à da Espanha. O Instituto apresentou os resultados de seu primeiro estudo sobre três aspectos da longevidade: planejamento, trabalho e aposentadoria; consumo e renda; e visão e valores. “A ideia do que é ser velho está mudando. Apesar dos medos, a maioria absoluta das pessoas tem orgulho de suas realizações na vida e faz planos para o futuro”, aponta Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

 

 

Ícone da longevidade

Para fechar o dia, a atriz Nicette Bruno subiu ao palco com a filha Beth Goulart para receber uma homenagem. Aos 85 anos de vida e 71 de carreira, foi celebrada por ser um ícone da longevidade e, com a filha, compartilhou algumas de suas histórias com o público, como a de como conheceu seu marido, Paulo Goulart (falecido em 2014), ou de como sua mãe, que era médica, virou atriz. “Eu não percebo que esse tempo todo passou. Como não ter alegria de subir num palco e ter esse contato com o público, essa troca de energia? Eu tenho que ser assim, alegre, porque eu faço o que amo”, declarou a atriz, que se orgulha de envelhecer. “Não temos de pensar em envelhecimento, e sim em maturidade, em aprendizado, em realizações que ainda temos por fazer. Se eu continuar com esta vontade de viver que eu tenho, eu vou ser tataravó.”

 

 

 

Prêmios Longevidade

O evento também foi palco da cerimônia de premiação do Prêmios Longevidade. Você vê a lista dos vencedores nas modalidades Pesquisa em Longevidade, Jornalismo e Histórias de Vida nesta matéria aqui.

 


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edna araujo vieira

08 de maio de 2019

Adorei a matéria.