Seis histórias mostram que sempre há tempo para fazer o que você gosta

Seis histórias mostram que sempre há tempo para fazer o que você gosta

Documentário Envelhescência traz o relato de seis pessoas 60+ que não tiveram medo de começar algo novo

18/10/2017



Nunca é tarde para começar um novo hobby. Sempre dá tempo de aprender um ofício diferente. É preciso lutar contra as próprias resistências, ignorar os desconfiados, experimentar e, principalmente, jamais deixar de fazer o que te dá aquele brilho no olho. A velhice não é, como costuma se imaginar, um limite nem, muito menos, o fim. É apenas uma nova etapa da vida, que precisa ser entendida também como mais uma oportunidade de curtir – o que bem se entender.

 

Com seis personagens como fio condutor do documentário Envelhescência, todos acima de 60 anos, Gabriel Martinez joga luz sobre as possibilidades que pintam pelo caminho, não importa a idade. As histórias vão, aos poucos, nos lembrando de que se trata, na verdade, de coragem para ouvir o coração e força para escolher o que se quer. Para dar um gostinho do filme, preparamos um resumo inspirador de cada personagem e convidamos o diretor para falar sobre a sua obra.

Os exames apontaram uma artrose completa. Como alguém nessa situação vivia com poucas dores e seguia firme dando aulas de aikido? Kenji Ono acredita que a dor é a comprovação de que se está vivo e, por isso, não reclama -– agradece. Fez a cirurgia, saiu do pós-operatório antes do previsto e adaptou seus movimentos apesar do desnível. Explica que o importante é aprender a observar e conhecer a si mesmo.

 

 

Oswaldo Silveira perdeu a mãe quando ainda era criança. Começou a trabalhar cedo, com dez anos, e nunca mais parou. Já falecido, no filme ele está com 84 e ainda na ativa. Um dos trunfos de sua longevidade foi a corrida. O banco de reservas nas peladas o levou a um novo esporte. Seguia uma rotina rígida de treinos e, desde os 50, foi maratonista. Entendia que a maior recompensa é cruzar a linha de chegada, não importa o cansaço.

 

 

O que poderia ser um problema transformou-se numa oportunidade. A cirurgia no olho não deu certo e o filho de Edmea Correa perdeu toda a visão – o que não o impediu de experimentar o surfe. Quando descobriu que ele estava surfando, dois meses depois, a mãe recebeu o convite para treinar junto. Com 58 anos à época, relutou. Não era coisa para alguém da sua idade. Que nada. Foi “amor à primeira onda” e logo arrastou o marido.

 

 

Os familiares demonstram preocupação, mas nenhum tem a ousadia de pedir que Luiz Schirmer pare de saltar. Há mais de 60 anos mergulhando no vazio, o paraquedista não sente a velhice. Diante da consternação dos mais novos, quando todos estão no avião, acaba mais assustado pelo susto dos outros do que por qualquer outra coisa. Abrir mão da sua maior paixão, apenas quando não conseguir subir a escada do avião.

 

 

Edson Gambuggi fez Farmácia para ajudar no negócio do pai. Prestou concurso, virou funcionário público e ainda cursou Direito para cuidar da família. Finalmente, aposentado, resolveu ir em busca do sonho de ser médico. Quando entrou na universidade, causou surpresa entre os colegas, que o confundiam com alguma autoridade da área médica. Era apenas um estudante. Receberia o canudo dali a alguns anos, aos 82 e às lágrimas.

 

 

Com um marido controlador, Judith só se sentiu livre de verdade quando ele faleceu. Depois de 51 anos dedicados ao casamento e aos filhos, saiu a viajar. Redescobriu-se nas tatuagens e na balada. Espalhou 25 desenhos por todo o corpo, o primeiro aos 70, e virou madrinha do rock’n’roll, como gosta de dizer. Antes de qualquer preconceito, chega o seu sorriso, capaz de desarmar qualquer um.

 

* Idades quando participaram do filme.

 

Quebrando paradigmas

 

Para Gabriel Martinez, diretor do documentário Envelhescência, as histórias foram um “tapa na cara” sobre sua visão da velhice.

 

Como surgiu a ideia do documentário?

Sempre quis trabalhar com documentários e, dentre os temas sugeridos por um amigo [Ruggero Fiandanese], em 2012, quando trabalhávamos na mesma produtora, estava esse da terceira idade. Chamou a minha atenção na hora. Sempre admirei as pessoas que encaram a velhice de maneira positiva. Tinha 34 anos e de vez em quando passava pela minha cabeça que estava velho para começar a fazer documentários.

 

 

“Se às vezes pensava estar velho para alguma coisa, as experiências deles viravam um tapa na cara sobre a minha interpretação de velhice.” Gabriel Martinez

Estas questões me instigavam: “O que é ser velho?”, “Até que ponto a velhice é ou não é uma interpretação errônea da nossa percepção?”, “Quando, de fato, estamos velhos para começar algo novo?”. Fiquei encantado pelas histórias dos personagens. Visualizei um filme em que poderia trabalhar com universos diferentes, cada qual com seu esporte e suas peculiaridades. Se às vezes pensava estar velho para alguma coisa, as experiências deles viravam um tapa na cara sobre a minha interpretação de velhice. Fiz questão de selecionar pessoas acima de 60 anos para deixar claro que a idade está na cabeça de cada um. Quando vemos uma pessoa de cabelos brancos realizando uma atividade que exala vida, isso vai contra aquele entendimento de velhice como o fim da vida. Uma pessoa que exibe um estilo de vida pulsante não parece estar no fim da vida. Então, o que é, afinal, a velhice?

 

 

O que aprendeu de mais importante com o filme, dessas lições de carregar para a vida?

Desde o momento da pesquisa até a conclusão das filmagens, é realmente uma nova percepção que se ganha quando corremos uma meia maratona ao lado de uma pessoa de 84 anos ou quando surfamos com outra de 68. Hoje, tenho exemplos empíricos do que pode ser a vida na idade madura, exemplos que eu não tinha antes. E sempre lembro deles cada vez que me acho velho para começar alguma coisa nova.


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