“Velhice é um ganho, um presente, uma alegria”

A filósofa Viviane Mosé faz uma reflexão sobre a nossa relação com o tempo durante a sua apresentação no XIV Fórum da Longevidade

12/11/2019



O que é o tempo?

"Quando pensamos em tempo, pensamos em cronologia, em um relógio, na relação do tempo com espaço. Os dois movimentos da Terra definem o dia, a noite e o tempo. Mas isso é só um padrão, um modo de organização. O tempo não é submetido ao vínculo com o espaço."

 

 

 

 

Tempo lógico x tempo da vida

“Quando eu fiz 39 anos, eu engravidei. Quando isso aconteceu eu procurei uma médica especialista em gravidez de risco. Ela fez meus exames e me entregou uma coisa simples para fazer e eu falei: ‘é só isso?’ Ela respondeu: ‘por que é que a senhora está preocupada?’ Eu disse: ‘porque eu tenho 39 anos’. E ela respondeu: ‘a senhora não tem 39 anos.  Pelos seus exames você é mais nova do que a moça que acabou de sair daqui, que tem 22 anos. Porque ela tem pressão alta e um desgaste físico muito grande’. Então a idade, disse essa médica, não é exatamente a cronológica. A idade é o tempo de vida do seu corpo.”

 

Nós só temos o presente

“O que significa o tempo da vida? Ontem era passado, hoje é o presente e o amanhã é o futuro. Eu digo que amanhã vou conseguir tal coisa. Mas de fato eu tenho o presente, que é um círculo que se estende pelos lados. E eu vou levando esse círculo comigo. Nós só temos um presente, só uma roda, um círculo enorme que a gente leva onde vai. Eu acordo e é um novo presente. O círculo do meu presente tem um passado atrás que ele carrega, enorme. E tenho também uma projeção bela adiante. Um desejo que está adiante. Quando eu considero o tempo como uma linha, o que eu tenho no presente é absolutamente nada. Eu tenho passado, eu tenho futuro, mas o meu presente é nada.”

 

Velhice é uma alegria

“Vivemos um grande e largo presente. No entanto isso traz problemas. Se eu tenho 55 anos eu tenho, hoje, o que a minha mãe teria quando ela tinha 30 anos. O tempo da vida cresceu com a gente. No entanto nós chegamos a essa idade como se envelhecer fosse um problema. Envelhecer era um problema porque envelhecer era um acúmulo. A infância é linda, a juventude é maravilhosa, mas envelhecer é um inferno. Era assim que a gente aprendia.

A velhice foi considerada um problema até ontem. Não pode mais ser considerada, porque estamos vivendo 80 e 90 anos.  isso tem que ser um ganho, um presente e uma alegria, mas ela só será alegria se ela significar ganho de vida, se a gente entender que o tempo cronológico é necessário para a ordem social, para organização dos corpos e hierarquias. Ninguém vive sem ordem e hierarquia. Agora, isto [o tempo cronológico] não é a vida, não é o corpo.”


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