“Videogame não é só para criança”

Fabio Ota, fundador da ISGame, explica por que os jogos eletrônicos podem favorecer um envelhecimento saudável

29/07/2019



Para o paulistano Fabio Ota, não existe idade para jogar videogame. Aos 56 anos, ele não só continua curtindo os jogos eletrônicos como também ensina gente de 8 a 89 anos a desenvolver seus próprios games na escola que ele fundou em 2014, a ISGame.

 

No início a ideia era ajudar as crianças a desenvolver o raciocínio, a concentração e o planejamento de uma maneira divertida. Mas Ota logo percebeu que essa mesma metodologia poderia ser usada para melhorar aspectos como a cognição e a socialização de quem já passou dos 50.

 

Entre agosto e dezembro, ele estará na Unibes dando um curso de criação de games para os 50+ (saiba mais aqui), mas antes disso conversou com o Viva a Longevidade para explicar por que passar algumas horas por semana jogando pode favorecer — e muito — um envelhecimento saudável.

 

 

 

Videogame é coisa de quem tem mais de 50?

É sim, claro. Na ISGame, a gente quer promover essa quebra de paradigma: videogame não é só para criança e não é só para diversão. As pesquisas mostram que a partir dos 45 anos já começa nosso declínio cognitivo. Então, se estamos falando em prevenção e melhor qualidade de vida, tem que começar a se cuidar até antes. O jogo é um instrumento para trabalhar a parte cognitiva, mas também é importante para trabalhar o planejamento, a concentração, conhecer uma nova tecnologia. É aí que a gente entra, para desmistificar essa ideia de que videogame é coisa de criança e adolescente.

 

"A gente desmistifica a ideia de que videogame é coisa de criança e adolescente"

Como os games podem fazer bem para os mais velhos?

Existem estudos que mostram que só o fato de jogar um videogame já melhora o raciocínio, a coordenação motora fina, a criatividade e a capacidade de planejamento. A gente já desenvolveu jogos até para idosos com princípio de Alzheimer, que são mais simples e focados na melhora da saúde mental. Quando as pessoas começam a desenvolver um game próprio, melhora ainda mais, porque a nossa metodologia não tem aquele manualzinho que dá todo o passo a passo. É para desenvolver o raciocínio lógico e a criatividade.

 

De que maneira isso é feito?

No curso, os alunos têm que pensar por si mesmos no que eles precisam para fazer um videogame. Então têm que planejar a construção do jogo: criar os personagens, um cenário, um roteiro, pensar nas dificuldades, nos inimigos, em como superá-los. E entender como fazer um jogo fácil o suficiente para alguém começar a jogar e que vá aumentando o nível de dificuldade para desafiar o jogador, senão ele enjoa e desiste. Nisso, eles estão trabalhando as duas partes do cérebro, e conseguem ter uma qualidade melhor de saúde mental porque estão na ativa, pensando em coisas diferentes do que fazem no dia a dia.

 

Dominar um planejamento tão complexo motiva as pessoas a recriar projetos de vida?

Eu acho que sim. O planejamento de um jogo é feito passo a passo. Quando você faz um projeto muito grande, de game ou na vida, em geral não tem a visão de como você vai chegar lá. Se você quebra esse projeto em vários projetinhos — e aí entra o modelo ágil, os sprints —, cada um desses pedacinhos parece mais viável para você. Por exemplo, a gente começa a desenvolver um personagem, fica duas semanas pensando nisso. Acabou, vamos fazer ele andar, ir para o cenário. Vamos construindo passo a passo, e no final, tem-se o game. Pequenas metas são fáceis de atingir, e de comemorar. Isso é motivador e se aplica aos projetos de vida também.

 

'Os 50+ veem a criação dos games como um exercício para a cabeça"

Qual é a faixa etária dos seus alunos seniores?

A gente tem poucos alunos de 50 a 60 anos. A maioria está na faixa entre 65 e 75. A Lurdes, que era nossa aluna mais velha, tem 82 anos, mas agora ela perdeu o posto para o Gabriel, que tem 89. Falo “ih, Lurdes, você tá muito novinha” (risos). Minha mãe tem 76 anos e está fazendo o curso. Ela vai toda quinta, faz uma viagem de Itaquera (Zona Leste de São Paulo) até o Butantã (Zona Oeste).

 

Tem muita mulher fazendo o curso?

A maioria dos nossos alunos são mulheres. As mulheres são mais ativas, saem para fazer as coisas, são mais ligadas. De cada 20 alunos, eu tenho no máximo seis homens. É engraçado, porque muitas nunca jogaram videogame. Tem uma aluna que disse “agora eu sei por que meu netinho fica jogando tanto e não quer parar”.

 

Qual é a motivação dos 50+ para aprender a fazer games?

Quem tem 50, 60 anos, em geral está pensando em trabalhar com tecnologia. A gente já tem cinco instrutores com mais de 60. Eles fazem o curso, depois viram monitores e passam a ser instrutores remunerados. A gente tem um instrutor de 69 anos, ele trabalha duas ou três vezes por semana. Já os mais velhos, de 70, 80 anos, pensam na memória, falam “eu não posso parar, tenho que ficar na ativa”. Eles sabem que, se pararem, isso vai atrapalhar a parte física, a cabeça vai pro espaço. Eles veem a criação dos games como um exercício para a cabeça, fazem o curso porque acham divertido. E depois enchem a boca para falar aos outros que estão aprendendo a fazer os jogos.



"Com os games, a interação entre as gerações é muito forte, e isso aumenta muito a autoestima, e consequentemente a qualidade de vida"

Vão se gabar pros netos?

Sim, eles mostram para os netos e entram nesse mundo, descobrem que também podem conversar sobre videogames. A gente tem uma aluna de 77 anos, a dona Tereza, que fez o game para a netinha e ficou supercontente. Com os games, essa interação entre as gerações é muito forte, e isso aumenta muito a autoestima, e consequentemente a qualidade de vida. Isso é muito importante para a gente. Em todos os cursos, a gente abre para a família vir ver o que os alunos estão fazendo, e no final tem festa de confraternização para as crianças virem jogar o que os avós criaram. Você tem que ver a alegria dos netos vendo que os avós fizeram o jogo, porque eles sabem jogar, mas não sabem fazer. Antigamente os avós ensinavam os netos a jogar bola de gude, era o que eles sabiam. Agora eles ensinam as crianças a jogar videogame, algo que você nunca viu na vida.

 

PROGRAMA LONGEVIDADE 2019

 

Inovação, tecnologia e empreendedorismo aliados à longevidade. Essa é a proposta do Programa Longevidade 2019, apresentado pela Bradesco Seguros: integrar e capacitar o público sênior, com o objetivo de criar uma rede de inclusão empreendedora. Isso tudo com uma série de workshops e palestras sobre a temática voltada ao público 50+. Toda as atividades (palestras e workshops) são gratuitas, e as inscrições devem ser feitas pela internet.

 

ISGame

O quê: Palestra “Cérebro Ativo – Tecnologia e Cognição”.

Quando: 1º/8/2019 (19h30 – 21h30)

Onde: Unibes Cultural (R. Oscar Freire, 2.500 – São Paulo/SP)

Quanto: gratuito.

Como: faça a sua inscrição para assistir à palestra.


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