Nosso corpo se cura melhor de dia do que à noite

A capacidade de se recuperar de lesões e até de cirurgias varia de acordo com nosso relógio biológico

17/09/2019



Você sabia que os machucados se curam duas vezes mais rápido quando acontecem de dia, e não de noite? E que tomar vacina entre as 9h e às 11h nos ajuda a produzir quatro vezes mais anticorpos do que seis horas depois? Mais uma: fazer uma cirurgia cardíaca de manhã nos dá mais perspectivas de sobrevivência em longo prazo do que à tarde, informa um artigo da BBC.

 

"Quem somos fisiologicamente durante o dia é diferente do que somos à noite", diz Tami Martino, diretora do Centro de Investigações Cardiovasculares da Universidade de Guelph, no Canadá.

 

 

Isso significa que nosso sistema imunológico e nossa capacidade de recuperar lesões e infecções obedece ao nosso ritmo circadiano, os ciclos que estabelecem o melhor momento para as atividades das nossas células. Entender esse ritmo pode fazer com que medicamentos e intervenções médicas sejam administrados nos momentos em que têm mais chances de serem eficazes e quando os pacientes podem ter a melhor recuperação.

 

Os gregos e os chineses já haviam observado que o corpo se comporta de maneira diferente dependendo do horário. Hoje, os pesquisadores sabem que as chances de cura de uma lesão ou doença podem ser maiores durante o dia do que à noite.

 

"Nossas células evoluíram para poder curar feridas de maneira mais eficaz no momento biológico em que elas são mais prováveis de ocorrer", diz John O'Neill, biólogo circadiano do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica em Cambridge, Reino Unido. "Se você é humano, é extremamente improvável que ocorra uma grande ferida quando estiver dormindo no meio da noite, enquanto durante o dia é muito mais provável que se machuque."

 

Em uma de suas pesquisas, ele descobriu que as células chamadas fibroblastos (que ajudam a reparar os danos nos tecidos ao estabelecer um novo colágeno para as células da pele) migram mais rapidamente para as áreas lesadas de dia do que à noite.

 

"Encontramos uma diferença de quase duas vezes na cicatrização de feridas em função do tempo biológico", diz O'Neil. Ao analisar dados do Banco Internacional de Lesões por Queimaduras, sua equipe constatou que quem sofre uma queimadura à noite demora 11 dias a mais para cicatrizar do que quem passa pela mesma experiência durante o dia.

 

Essa descoberta também pode ajudar os médicos a administrar tratamentos no horário em que ele seja mais eficaz. Um estudo recente sugere que a radioterapia pode ser mais eficaz se administrada à tarde, e não pela manhã. Outros medicamentos, como aspirina, ibuprofeno, remédios para pressão arterial, úlceras pépticas, asma e câncer também podem ser mais eficazes se tomados no melhor horário –que, nesses casos, é à noite.

 

Esses medicamentos têm uma meia vida inferior a seis horas, o que significa que eles não permanecem no corpo tempo suficiente para funcionar da maneira ideal se forem tomados no momento menos adequado. Um exemplo: o medicamento para pressão arterial valsartan é 60% mais eficaz quando tomado à noite, em comparação com a manhã. Já a aspirina é mais eficaz à noite, assim como alguns comprimidos anti-histamínicos para alergias como a rinite alérgica.

 

Essas descobertas, porém, não são uma fórmula mágica que atende a todos, afinal as pessoas têm ritmos circadianos diferentes –algumas são mais diurnas; outras, mais noturnas. Dessa forma, ainda não se pode confirmar com precisão onde estão os ponteiros do relógio interno de um indivíduo. Além disso, no próprio ambiente hospitalar, com pouca iluminação natural, a luz artificial desregula nosso ritmo biológico.

 

Por enquanto, pesquisadores já estão testando em animais medicamentos que possam estabilizar ritmos circadianos em pacientes hospitalizados -- ou paralisá-los por tempo suficiente para realizar a cirurgia no momento ideal de recuperação. "No futuro, posso imaginar um mundo em que estamos usando uma pílula circadiana ou a presença ou ausência de luz para curar doenças cardíacas", diz Martino.


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