Orçamento em verso e prosa

Quem já se viu querendo comprar algo contando com um dinheiro que, talvez, um dia, vá chegar?

por Mara Luquet



Antes de recorrer aos manuais de economia ou guias de finanças, prefiro garimpar na literatura, entre meus autores favoritos, o didatismo de questões financeiras vividas por personagens que sempre me impressionam por se mostrarem tão reais.

 

Quer um exemplo? Mário Benedetti, no seu conto “Orçamento”, retrata uma armadilha financeira clássica.

 

Isso, os biscoitos, foi o primeiro passo. Logo depois, veio o par de sapatos que o Chefe comprou. Depois dos sapatos do Chefe, minha caneta adquirida em dez prestações. Seguiu-se à minha caneta o sobretudo do Segundo Oficial, a carteira da Primeira Datilógrafa, a bicicleta do Primeiro Auxiliar. Um mês e meio depois, estávamos todos endividados e angustiados.”

 

Diga a verdade, há melhor descrição do perigo que é antecipar um consumo sem ter a garantia do recurso para honrá-lo?

 

A estória se passa numa repartição pública onde todos os servidores estavam angustiados, pois começaram a se endividar contando com um aumento que fora prometido e não se concretizou. Benedetti, com sua sensibilidade para desnudar a alma de seus personagens, nos revela os maiores vilões das finanças pessoais: os sonhos e os desejos apressados.

 

Embora, em seu conto, Benedetti tenha retratado a vida do montevideano comum entre as décadas de 1950 e 1960 – período em que o Uruguai viveu o auge e o declínio econômico do pós-guerra – o cenário poderia ter sido em qualquer país, em qualquer época.

 

Afinal, quantas pessoas você conhece que passaram por situação semelhante? Pode até não ser o excepcional caso de um aumento salarial frustrado; fiquemos então na singela segunda parcela do décimo-terceiro salário, tão desidratada por surpreendentes descontos; ou ainda na sonhada restituição da declaração do Imposto de Renda, retida na famigerada malha fina; quantas vezes não viu alguém ou a si mesmo realizando sonhos de consumo contando com uma grana extra antes que ela lhe tenha, efetivamente, chegado às mãos?

 

Lembre-se sempre que, ao antecipar um consumo, você estará pagando um pedágio representado pelo custo do financiamento, seja ele qual for; ao passo que, ao postergá-lo, receberá um prêmio proporcionado pelo rendimento da aplicação do dinheiro. Ou seja, ao invés de pagar, você receberá juros.

 

Não há nada de errado em agir de uma forma ou de outra, desde que se tenha consciência da escolha. Portanto, procure as informações corretas e lembre-se do conto de Benedetti: não se deve contar com recursos que não passam de uma quimera.

 

E para finalizar recorro à poesia de Cecília Meireles para reforçar a importância do lirismo na construção de um orçamento que lhe renderá prosperidade:

 

“Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!”

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