Você é infiel quando se trata de finanças?

Você é infiel quando se trata de finanças?

Você fala sobre dinheiro com a pessoa com quem você divide o teto (e a conta bancária)? Pois deveria

Por Mara Luquet



“Quando Charles, arrasado pela notícia da apreensão, entrara em casa, Emma acabara de sair. Ele gritou, chorou, desmaiou, mas ela não voltou. Onde poderia estar? Mandou Félicité à casa de Homais, do Sr. Tuvache, de Lheureux, ao Leão de Ouro, a toda parte; e, nos intervalos de sua angustia, ele via sua reputação aniquilada, a fortuna perdida, o futuro de Berthe destruído! Por que motivo?... Nem uma palavra! 

 

Esperou até as seis horas da tarde. Enfim, não aguentando mais, imaginando que ela partira para Rouen, tomou a estrada principal, andou meia légua, não encontrou ninguém, esperou mais um pouco e voltou. 

 

Ela havia regressado. 

 

- O que houve?... Por quê?... Explique-me!...            

 

Ela sentou-se à sua escrivaninha, escreveu uma carta que fechou lentamente, acrescentando a data e a hora. Depois disse em tom solene: 

 

- Você vai lê-la amanhã; de agora até então, eu lhe peço, não me faça nenhuma pergunta!... Não, nenhuma!”

(Trecho do livro Madame Bovary, Gustave Flaubert — Tradução de Herculano Villas-Boas — Editora Martin Claret)

 

Foi a dívida impagável, e não a descoberta do seu adultério, que levou a personagem título do clássico de Gustave Flaubert à morte. Madame Bovary escandalizou a sociedade francesa do século 19 e levou seu autor ao banco dos réus, acusado de ofensa à moral e à religião, pelo comportamento da heroína de sua obra frente aos costumes da época. 

 

Porém, na minha opinião, o adultério já estava bem resolvido naquele casamento. O verdadeiro motivo da fatalidade foram as dívidas. Conversei com estudiosos de Flaubert, fiz pesquisa bibliográfica, e, no entanto, não encontrei nada que corroborasse minha tese. 

 

Assim, humildemente, reconheço que tudo não deve passar do viés de uma jornalista da área de economia e finanças e uma profunda admiradora de Flaubert. 

 

Mas, ainda que sem o aval acadêmico, devo insistir: a causa do trágico desfecho foi a dívida. Nem Madame Bovary, nem Charles dão sinais claros de que se incomodavam com o adultério. Porém, quando se dão conta de que a dívida se torna impagável, entram em desespero. 

 

Dinheiro na DR

São muitos os especialistas em finanças pessoais que apontam as dívidas como um dos principais motivos que desencadeiam os divórcios. Embora saibamos que o fim de um casamento é como um acidente aéreo — há que haver sempre uma conjunção de fatores para provocá-lo —, o problema financeiro estará presente na maioria dos casos. Quanto a isto, não resta dúvida. 

 

Conversar para não brigar

Daí a importância de se falar com seu parceiro sobre esse assunto, por sinal, nada romântico. Mas, calma lá, eu disse falar, e não brigar. Parece trivial, mas não é. Ao contrário, é um verdadeiro tabu. Casais não falam sobre dinheiro, mostram as pesquisas. Quando esse tema aparece nas conversas, em geral, já estão brigando. 

 

A psicóloga americana, Joan Atwood, em uma entrevista ao jornal The New York Times (conteúdo em inglês), disse que a forma como os casais lidam com o dinheiro revela muito do próprio relacionamento. Atwood estudou, há alguns anos, o comportamento de casais americanos e descobriu que dinheiro é uma metáfora e, por isso, é interessante questionar o seu cônjuge sobre a importância que dá a ele.

 

  • Dinheiro para você representa prestígio, segurança ou sucesso?
  • Sua autoestima está diretamente relacionada ao quanto você ganha?
  • De que forma um cônjuge que não trabalha é visto por você?

 

Atwood diz, ainda, que as respostas a essas perguntas não formam um quadro definitivo, pois, com o passar dos anos, as coisas podem mudar entre o casal. No entanto, pode ser um bom começo para se conhecer um pouco o perfil do companheiro. 

 

E, para encerrarmos, voltemos à Madame Bovary (para você que ainda não leu, recomendo ardentemente que o faça e aproveite para conversar com seu companheiro sobre questões financeiras à luz dessa obra magnífica) e à infidelidade financeira, que poderia ser constatada em seus personagens, assim como na vida real, observando os seguintes comportamentos.

 

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