A escrita e a leitura que libertam

A escrita e a leitura que libertam

Uma professora carioca leva seus alunos da alfabetização adulta a escrever livros com suas histórias de vida

23/04/2019 - por Márcia Peltier



É início da noite no Leblon, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. O movimento dentro do CIEP Nação Rubro Negra – fica pertinho do campo de treinamento do Flamengo, daí o nome – é intenso. Na última sala de um longo corredor repleto de alunos em trânsito, está no quadro negro a professora Marcia Cardoso. A turma, atenta, tem idades e jeitos muito variados.

 

Marcia, de aparência jovial e sorriso aberto (como dá para ver na imagem logo abaixo), é professora das classes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), e dá aulas de matemática, português e geografia. Mas vai além. Tem ideias inovadoras, para estimular nos seus alunos o amor pelo conhecimento, pela leitura e pela escrita.

 

 

Uma dessas ideias se transformou em projeto, e o projeto virou uma bela realidade. Em 2018, 48 alunos que haviam concluído a etapa da alfabetização se engajaram na produção de livros escritos por eles próprios!

 

Com a ajuda das ONGs Parceiros da Educação e Football for a Cause, os livros, coloridos e variados foram lançados em novembro, com direito a noite de autógrafos dos autores. Emocionante ver como esses alunos, muitos deles com 50, 60 anos de idade, abraçaram a arte da escrita e produziram textos tocantes. Por isso, hoje, dia 23 de abril, Dia do Livro, vou dar lugar aqui ao relato de dois desses alunos, para que vocês também se emocionem.

 

“Vi que ler e escrever desbloqueia a nossa mente.”

Dilceia Braga Lima

A primeira é Dilceia Braga Lima, que tem 52 anos e nasceu em Duque de Caxias, município do estado do Rio.

 

“Carrego meu livro para todo lado! O nome é ‘Minha história, meu testemunho’. Vi que ler e escrever desbloqueia a nossa mente! Fui capaz de contar nesse livro uma história, a minha própria. Um dia, recebi uma mensagem de Deus de que deveria voltar a estudar. Mas tinha vergonha de, depois de velha, voltar à sala de aula. A vontade e a inspiração divina foram mais fortes, e consegui a última vaga aqui no CIEP.  Pensei: eu posso estudar, sim, eu posso ser alguém. Somos 19 irmãos, todos criados na tradição evangélica. Trabalhei muito quando garota: acordava às 4 e meia da manhã para preparar o bolo de aipim que vendíamos. Há 11 anos, passei a morar nas ruas para fazer o trabalho missionário. Logo no primeiro dia de aula, a professora Marcia me falou do projeto dos livros – e o meu texto saiu a jato! Meu plano é seguir estudando e me tornar uma advogada.”

 

 

“Ganhei o mundo enorme da leitura. E vou continuar rejuvenescendo pelo conhecimento!”

José Cardoso

O segundo chega de mansinho, com sorriso aberto: José Cardoso de Santana, nascido num povoado de 12 casas na Paraíba. Até os 19 anos, só viu a lavoura familiar. Foi quando pegou a estrada para o Rio de Janeiro, onde se empregou no Flamengo. Há dois anos, decidiu enfrentar os estudos e se “empapuçar de conhecimento”. O nome do seu livro é “Como se fosse uma semente”. Ele conta:

 

“Ter esse livro com meu nome e minha história é um espanto, uma prova de força, me dá segurança e tranquilidade: falo com artistas, celebridades, falo com qualquer pessoa. Dei entrevista ao Jô Soares! Fiz 63 anos em março, mas sinto que vou ficando sempre mais jovem, ao contrário de quem estaciona na vida. Conhecer a professora Márcia aqui no CIEP foi como alcançar uma jangada no mar quando você está morrendo afogado. Foi o conhecimento! Quando cheguei ao Flamengo, 44 anos atrás, me perguntaram se eu sabia ler. E eu disse: conheço só a letra O, porque é a boca do copo. E hoje estou contando minha história e minhas ideias nesse livro, e fazendo curso de paisagismo e plantio orgânico! Ganhei o mundo enorme da leitura. E vou continuar rejuvenescendo pelo conhecimento!”

 

Uma beleza de projeto. Eles ganham palavras, conhecimentos, ideias e capacidades. E a gente aplaude!

 

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