A história do brasileiro que eliminou o cigarro dos aviões

O médico Jorge Costa e Silva conseguiu essa façanha na época em que dirigiu a Organização Mundial de Saúde – e o que parecia impensável aconteceu!

30/05/2018 - por Márcia Peltier



Quem tem mais de 30 anos e viajava de avião em meados dos anos 1990 vai se lembrar da cena. Ao final da decolagem, os avisos de “proibido fumar” se apagavam – e imediatamente surgia uma nuvem de fumaça, de dezenas ou centenas de fumantes que acendiam seus cigarros. Hoje, fica até difícil acreditar nisso!

 

Na época, vetar o cigarro a bordo parecia impossível. Qual companhia aérea arriscaria perder passageiros com essa norma? Mas isso aconteceu. E quem conseguiu essa vitória foi um médico brasileiro: Jorge Alberto Costa e Silva. A bem da verdade, foi mais do que uma vitória; foi uma revolução em prol da saúde.  A proibição do fumo nos aviões deu início a uma onda de restrições ao cigarro em ambientes fechados pelo mundo todo. Lá vai a história.

    

Em 1992, Costa e Silva foi nomeado diretor da Organização Mundial de Saúde, que tem quartel-general na Suíça. Muito consciente da necessidade de mandar uma mensagem ao mundo sobre o mal que o tabaco faz à saúde, tomou uma decisão considerada maluca na época, a de banir o cigarro dos aviões. Viajante frequente desde jovem, tinha horror ao cigarro que empesteava tudo a bordo.

 

A proibição do fumo nos aviões foi o primeiro passo para uma revolução em escala planetária para banir a fumaça de locais fechados

“Ninguém acreditava que isso daria certo”, conta Jorge Alberto, em 2018, pelo telefone, a caminho de receber mais um dos quase incontáveis prêmios de sua carreira. “Convoquei o pessoal do programa Antitabaco da OMS e comuniquei que esta meta seria imediata. E fui primeiro à SwissAir, companhia aérea nacional”, relembra.

 

Os suíços foram gentis, mas as sedes das poderosas companhias de tabaco ficavam no país. Impasse. Desânimo? Que nada. Jorge Alberto decidiu mirar a maior empresa do setor, a norte-americana Delta. Chegou à cidade de Atlanta com quilos de documentos e a proposta ousada.

“Para minha grande surpresa, seis meses depois, o presidente da Delta me comunicou que sairia na frente na interdição do fumo nos voos”, relembra. “Quando decidi condecorá-lo, ouvi algo como: não mereço, porque foi uma decisão corporativa baseada no fato de que os gastos de limpeza, com demora e combustível na filtragem do ar eram imensos”.

 

 

O médico ri: sucesso por linhas tortas. Deu a medalha assim mesmo. E aponta que o caso foi o estopim da proibição do fumo em locais fechados, da suspensão de propagandas de cigarro e de muitas outras iniciativas na mesma direção. O recado havia sido dado. E era planetário.

 

 

“Naturalmente, há muito o que se considerar, inclusive as economias nacionais baseadas na agricultura do tabaco”, alerta. “Não se pode salvar uns e matar outros. Mas a ideia dos males que o fumo causa, com 3500 substâncias tóxicas em cada cigarro, está consolidada”, diz o médico brasileiro.

 

Hoje, o panorama do tabagismo é outro, bem mais favorável à saúde. E o Brasil tem um bem-sucedido programa no setor.  Jorge Alberto, que continua trabalhando em programas internacionais de saúde e no Instituto do Cérebro, é um exemplo incrível do que a determinação, a persistência e a visão a longo prazo podem fazer.



“Houve, sim, obstáculos gigantescos, e até ameaças, mas era preciso fazer alguma coisa. E eu sou um obcecado”

Jorge Alberto Costa e Silva

Maravilhosa obsessão! Nós agradecemos por ela. Quando me deparo com algo que parece impossível à primeira vista, penso nessa história do Jorge Alberto, desafiando o senso comum, a percepção de um fato estabelecido, e conseguindo uma virada histórica a favor da saúde e do bem-estar. E começo ali a repensar as interdições. Tem dado certo!

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