A importância da coletividade em períodos de crise

Ficar em casa não é covardia, e sim um ato de empatia, ensinam os jovens da família Freitas

23/03/2020 - por Márcia Peltier



Certo dia, em um tempo em que ainda podíamos sair pelas ruas sem os riscos de uma ameaça sanitária, presenciei uma cena inusitada. Um jovem, de no máximo 18 anos, ainda com uniforme escolar, discutia com seu pai sobre a necessidade de usar o capacete a bordo de uma bicicleta elétrica.

 

A discussão ganhava contornos pessoais, e muito se assemelhava às disputas travadas entre torcedores de futebol apaixonados. Era um debate entre o suposto direito de escolher correr riscos ao não usar o capacete, defendido pelo jovem, e o argumento de autoridade do pai, ou seja, o apelo ao “poder” da hierarquia e do respeito às ordens, ainda que sem muitas explicações.

 

 

Aquela conversa provocou em mim uma reflexão importante sobre coletividade e a responsabilidade que todos nós temos pelo simples fato de vivermos em sociedade.

 

Infelizmente, em muitos momentos nos apegamos a perspectivas extremamente individualistas e não conseguimos enxergar a relevância que cada mínimo comportamento que adotamos possui para o bom funcionamento da vida social.

 

Ora, não é difícil constatar que não usar capacete faz com que os acidentes em que haja choques na cabeça sejam mais graves, provocando, em escala social, maiores gastos públicos com cuidados médicos. A decisão sobre o uso de capacete, portanto, deixa de ser um mero ato de escolha individual para se tornar uma questão de saúde pública.

 

Coletividade e solidariedade

 

Por falar em saúde pública, não há no mundo quem não esteja, ao menos nos pensamentos, infectado pelo novo coronavírus. Vivemos tempos difíceis, sem precedentes recentes. Estamos sendo postos à prova enquanto sociedade. Governos do mundo inteiro orientam que as pessoas permaneçam em suas casas para reduzir ao máximo a transmissão do vírus.

 

Não existe lado bom em uma pandemia, mas existem pessoas que estão dando belas lições sobre como fazer da necessidade de reclusão um verdadeiro exercício de cidadania.

 

A família Freitas, por exemplo, está confinada dentro de casa. Há algo muito forte e eficiente que os mantém lá: empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

 

“Acredito no poder da solidariedade e tenho visto belos exemplos de ajuda ao próximo.”

Os três filhos decidiram que, diante da atual situação, não sairiam mais de casa a fim de proteger seus pais, que fazem parte do grupo de risco. Elze Freitas, de 62 anos, resumiu o sentimento: “Me senti amparada, cuidada. Me senti importante para eles”.

 

Mas ainda tem gente ignorando os apelos de evitar circular pelas ruas sem necessidade. Nessa hora, cresce a importância da rede de conscientização que vem sendo construída na internet que traz até sugestões de atividades para a “quarentena”.

 

Nem só de seguidores e compartilhamentos online é que se deve viver no período de isolamento. É tempo de regar as raízes da vida familiar, convivendo plenamente com aqueles que, nos últimos tempos, vemos mais pela foto do WhatsApp do que na beleza das refeições em volta da mesa.

 

Acredito no poder da solidariedade e tenho visto belos exemplos de ajuda ao próximo. Aqui no Rio de Janeiro, pessoas vêm fazendo compras para os mais idosos, ajudando-os a manterem suas despensas abastecidas.

 

Isolar-se não pode ser sinônimo de solidão. Um belo exemplo de união foi a imagem emocionante de italianos cantando, cada um de sua casa, a música "Andrà tutto bene” (“Vai ficar tudo bem” em tradução livre). Sim, concordo com a canção italiana. Vai ficar tudo bem! Cantemos com o coração. Mas ajamos, também, com a razão.

 

Quando o sol despontar novamente, quando a primeira flor der sinal de que vai nascer, não esqueçamos dos dias de hoje, da importância de cada um para salvar vidas, de que recolher-se em nada se assemelha a acovardar-se. E, na primeira volta a ser dada ao ar livre, sobre duas rodas de uma bicicleta, não se esqueça: use capacete.

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