Arrumar por fora, arrumar por dentro

A organização dos ambientes à nossa volta pode ser um exercício de pacificação interna. E a ordem pode trazer uma tranquilidade que faz a vida mais doce

13/03/2019 - por Márcia Peltier



Programas de TV sobre casa, decoração, cozinha: eu adoro, me divirto. E muita gente também descobriu o prazer em torno desses assuntos nos últimos anos. Outro dia, deparei-me com o programa da japonesa Marie Kondo, sobre arrumação. Ela é uma escritora best-seller: seu livro vendeu mais de dois milhões de exemplares no mundo todo. E fiquei pensando. Por que o assunto “arrumação” de repente fez tanto sucesso?

 

Uma pista: Caetano Veloso disse, numa entrevista, que adorava lavar louça, pelo prazer de transformar o sujo em limpo tão rapidamente, numa espécie de terapia. Fez todo o sentido. Organizar é terapêutico!

 

“Organizar é criar um ambiente controlado, que tenha um fluxo compreensível”, pondera o psicanalista Mário Faico. “É escapulir do caos que cria ansiedade.”

 

 

É claro! No mundo de hoje, a informação chega sem parar, de forma caótica. Nossa era é de infinitudes, de grandes mudanças na maneira como grupos trocam ideias. Um avanço enorme, mas não fomos feitos para a constante ausência de limites. Parâmetros, ideias reguladoras são muito importantes. São as nossas referências.

 

“Portanto, quando estamos em meio a uma desordem interna, trabalhar com o campo simbólico de uma arrumação externa pode ser bem tranquilizador”, continua o psicanalista. “Precisamos desses atos simbólicos para dar conta da realidade.”

 

“Arrumar o ambiente externo pode ser tranquilizador, ao ativar uma simbologia da arrumação interna.”

Mário Faico, psicanalista

É claro que estamos falando de um processo saudável para trabalhar no nosso dia a dia, de um exercício de previsão e de lógica no cotidiano. Há quem seja obsessivo, um prisioneiro da necessidade de ordenar, ou limpar. É o extremo oposto à desordem, mas numa atitude comandada pelo medo ou pela compulsão.

 

“Esses estão presos num círculo vicioso de pensamento, num nível de sofrimento patológico”, continua Mario Faico. “E nenhuma prisão é agradável.”

 

Aplique-se à organização

 

A professora carioca Eliana Seraphim lançou, em 2018, seu livro sobre o assunto — “A Arte da Organização” (Ed. Autografia) —, e concorda que estamos vivendo uma “necessidade social” de arrumação.

 

“Estudei nos Estados Unidos nos anos 80, e me encantei com as técnicas e debates em torno do assunto”, relembra. “Já o Brasil demorou a tratar disso, por razões históricas, inclusive: uma sociedade com muitos empregados domésticos, por exemplo, tende a delegar essas funções”, explica.

 

A acelerada urbanização do país também contribuiu para a necessidade de repensar a logística dos espaços residenciais, cada vez mais compactos. E muita gente passou a ficar mais em casa. E aí, um ambiente agradável, ordenado, com personalidade fica cada vez mais importante.

 

“Quanto mais você organiza, melhor as coisas fluem”, resume Eliana. “E se a gente só consegue ter uma casa organizada se a cabeça estiver organizada, a mão dupla é real: se a gente se aplica à organização, isso se reflete no interior da pessoa.”

 

Olhei em volta, vi minha casa em ordem, meu coração tranquilo... e fiquei feliz.

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