As lições de amor e da arte de Frida Kahlo

A pintora mexicana abraçou sua herança cultural e até as dores de um corpo machucado para criar uma obra única e poderosa

por Márcia Peltier



Ela não era uma bonequinha dessas de cinema norte-americano. Nada disso. Frida Kahlo tinha traços fortes: a herança indígena misturada à europeia – a mãe era mexicana, o pai, alemão. Ela fazia questão de se manter próxima à tradição, criando trajes de deslumbrantes coloridos, texturas rústicas, usando cabelos em tranças grossas.

 

E as sobrancelhas! Na contramão dos traçados finíssimos de atrizes como sua contemporânea Marlene Dietrich, Frida cultivava um desconcertante visual. A palavra é essa mesmo: desconcertante, impactante. Único. Singular.

 

A matéria-prima de sua pintura vinha da própria vida, das dores físicas, da coragem de desafiar

Frida foi uma pintora de fantástica expressividade. Seus temas giram em torno do feminino e da dor. Sim, a dor ela conhecia muito bem. Teve poliomielite na infância e ficou com uma perna mais curta que a outra. Aos 18 anos, um acidente de bonde causou extensos ferimentos que a deixaram presa, com dor intensa, pela vida toda. Há uma famosa foto de Frida pintando toda engessada, numa cama de hospital, usando um espelho para enxergar a tela!  

 

A dor emocional também está, digamos, no cardápio: incapaz de engravidar, em consequência da pólio e do acidente, retrata esse sofrimento em diversos trabalhos. Morreu cedo, em 1954, aos 47 anos – e sua última pintura, feita pouco antes de sua partida, traz uma melancia de vermelho flamejante, onde se lê “Viva a Vida”.

 

Mais de 60 anos depois de sua morte, a pintora mexicana continua nos surpreendendo com sua imagem, sua arte, seu comportamento. Fui checar a exposição de 60 fotos inéditas no Brasil que mostram Frida com seu marido, o também pintor Diego Rivera. A mostra “Frida & Diego – Fragmentos”, que ocupa o Centro Paula Souza em São Paulo até 13 de julho, foi trazida pelo Consulado do México. Uma experiência maravilhosa para conhecer novos ângulos desse casal.

 

E por que falar de Frida Kahlo? Porque nunca é demais refletir sobre o trabalho dessa artista que fez de sua própria vida, de sua dor, de sua luta a matéria-prima da criação. Numa época em que a mulher estava tão sujeita a convenções limitadoras, numa sociedade tradicionalista como a mexicana dos anos 30, mostrou-se destemida nas suas escolhas, enfrentou as comparações com o trabalho do marido e os preconceitos contra a identidade intensamente mexicana da sua arte, frequentemente olhada como “folclore”.



Frida pode nos ensinar a valorizar nossa origem, a tratar como beleza nossas singularidades, acolher como parte de nós até mesmo nossas dores – que também são, afinal de contas, pavimento do caminho...

Quando vejo as imagens dessa mulher transbordante de talento, força e coragem, aconchego também meus defeitos e dificuldades como parte de minha história. Com amor.

 

Uma sugestão: para conhecer melhor a obra de Frida, faça esse maravilhoso passeio virtual na Casa Azul.

 

Serviço

 

Exposição Frida & Diego – Fragmentos

Data: 15 de maio a 13 de julho

Horário: das 9 horas às 18 horas (segunda a sexta-feira)

Local: Centro Paula Souza – Rua dos Andradas, 140 – Santa Ifigênia – São Paulo

Entrada gratuita (agendamento pelo e-mail inscricao.arinter@cps.sp.gov.br)

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