Correspondência: o exercício de amor que todos podemos fazer

Correspondência: o exercício de amor que todos podemos fazer

Existe, inclusive, um programa chamado Carta & Livro, que promove uma linda integração.

27/11/2019 - por Márcia Peltier



Não é a primeira vez que eu abordo, neste nosso espaço digital, a comunicação por escrito – e no papel. Já falei de livros e cadernos, de bibliotecas, do exercício de se fazer um diário.

 

Quem é muito jovem talvez não tenha essa vivência: hoje, até os bilhetes sumiram do nosso cotidiano, substituídos pelos recados em aplicativos de mensagens.

 

Mas vou propor aqui uma reflexão sobre a escrita e, principalmente, sobre o tempo, o pensamento e o sentimento.

 

Há um belo ritual na escrita. O papel com suas cores e texturas, o toque do lápis ou da caneta, o próprio desenho da caligrafia – que é sempre única, individual, reveladora. E íntima.

 

Depois, passo a passo, linha a linha, deixar um testemunho concreto daquele lugar e daquele instante. E, a seguir, o tempo de ir e vir: a carta segue, sai das nossas mãos como um pássaro, e nós aguardamos a resposta, igualmente concreta e singular.

 

A expectativa torna a carta muito diferente da mensagem no telefone que a gente manda em três segundos.

 

No filme “Nunca te vi, sempre te amei”, de 1987, acompanhamos um relacionamento de décadas entre uma escritora americana e um livreiro inglês, sempre por meio das cartas. Em cada palavra, há sentimento, há desejo de troca, gentileza, esforço para se fazer entender. É uma arte.

 

Escrever uma carta envolve carinho e arte, desejo de se fazer entender, com tempo e dedicação.

Cartas também podem ser uma linda maneira de ajudar.

Existe um espaço em São Paulo chamado Núcleo Morungaba, que há mais de 30 anos trabalha com valorização da diversidade, na arte, na convivência, na compaixão. E um dos programas do Morungaba tem como ferramenta justamente... cartas!

 

É uma beleza: chama-se Carta & Livro, existe desde 2012 e promove uma troca de missivas entre pessoas que não se conhecem. Voluntários trocam cartas com “crianças, jovens e idosos em situação de acolhimento e pessoas com deficiência intelectual”, como diz o site.

 

“A palavra é muito poderosa”, diz a fonoaudióloga e especialista em dança Renata Macedo Soares, fundadora do projeto Morungaba. “Temos, claro, psicólogos monitorando e ajudando a troca, para que a carta venha sempre somar. O resultado é maravilhoso.”

 

Há jovens que nunca viram uma carta! A comunicação instantânea reduz a chance de contato com sentimentos – os próprios, inclusive.

Renata conta que encontra jovens que sequer sabem o que é uma carta. “O automatismo, a velocidade e a linguagem telegráfica de hoje reduzem a expressão, até para entrar em contato com os próprios sentimentos. Esse resgate de si e da relação é muito importante.”
No fim de cada módulo, a turma da correspondência se encontra, e o voluntário leva um livro, escolhido especialmente para o seu correspondente.

 

É uma porta aberta para a comunicação mais amorosa, mais responsável, até mais lúdica. Vale a pena conhecer o projeto. E, quem sabe, colocar o afeto em forma de carta na nossa vida? Pense nisso. E experimente!

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