Celular só na dose certa

Em um mundo hiperconectado, o desafio é não deixar de lado a vida e os relacionamentos e evitar que o uso, mesmo que intenso, não vire dependência

por Márcia Peltier



Vi um cartum outro dia que me fez rir: a mesa posta tinha prato, copo, talheres e ... lugar para o celular. Depois da risada, comecei a pensar sobre nosso apego à telinha brilhante do smartphone, com esse mundo de informação e diversão na ponta dos dedos. Vamos falar a verdade: estamos, quase todos nós, muito apegados aos recursos tecnológicos da comunicação. Demais, em alguns casos.

 

Quantas vezes não vemos um casal sentado no restaurante, cada um com olhar fixo no celular? Quase não olham para a comida e nem conversam um com o outro. No teatro ou no cinema, raras as sessões em que não se percebe o pipocar de brilhos fugazes na plateia escurecida – distraindo a atenção do vizinho, incomodando quem está concentrado no palco ou na projeção.



Estamos, quase todos, muito apegados aos recursos tecnológicos. Demais, em alguns casos.

Saindo do dia a dia, pensei nos efeitos dessa relação estreita com a tecnologia da comunicação em médio e longo prazos. Será que a questão é mais profunda? Desconfio que sim.

 

“O fato é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) está reconhecendo a dependência de jogos digitais no novo CID [a sigla para Classificação Estatística Internacional de Doenças]”, revela a psicóloga Anna Lúcia Spear King. Anna Lúcia é especialista nesse assunto e fundou o Instituto Delete, que pesquisa há dez anos a crescente dependência da tecnologia. É também autora do livro “Nomofobia”: sigla para no mobile phobia ou fobia de ficar sem celular.

 

 

A palavra aqui é “dependência” – ou seja, estamos vendo que a tecnologia, na forma de telefones, computadores e atividades exclusivamente digitais, torna-se compulsão. A fina linha que divide o uso, mesmo intenso, da dependência, é onde precisamos concentrar nossa atenção.

 

“Quando a relação com o celular ou computador é mais forte do que tudo, acaba causando prejuízos físicos pela falta de atividade ou postura errada, prejuízos sociais pela ausência de interação e até dano ao meio ambiente pela substituição veloz de aparelhos e descarte inadequado”, enumera Anna Lúcia, que acaba de lançar uma etiqueta e uma cartilha digitais. ”Sem falar em quem digita e dirige. Um perigo!”

 

A tecnologia é uma maravilha para todos nós, um salto incrível para o conforto: conecta, informa, dá acesso e resolve muita coisa. Mas a dose é o que define a diferença entre alimento, remédio e veneno. Não dá para trocar um abraço fraterno, uma caminhada no parque pela exclusividade das telinhas piscantes. Olho vivo, gente. E olhos para o mundo real!

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