Corujões e passarinhos matinais: a convivência com quem tem ciclos diferentes

O negócio é fazer um acordo para o relacionamento não sofrer com o descompasso de ritmo

18/03/2020 - por Márcia Peltier



As malas da viagem estavam ainda fechadas quando acordei no dia seguinte à minha chegada das últimas férias, em novembro do ano passado. O dia estava lindo no Rio, onde eu moro — mas meus olhos se recusaram a abrir. Eu já conhecia essa sensação.

 

É o jet lag, aquele descompasso entre o ritmo da vida cotidiana e o corpo que chega de outro fuso horário. Demora um pouquinho esse ajuste.

 

 

Lembrei-me disso porque nesses dias eu encontrei uma amiga recém-casada. Ela contava que o marido tinha um timing completamente diferente do dela: “Márcia, ele acorda antes do sol nascer, animadíssimo, vai fazer esporte e, às dez da noite, já morre de sono. Eu, pelo contrário, sou uma tartaruga pela manhã, e começo a me animar no fim do dia!”.

 

Taí! As duas situações falam do ritmo pessoal, físico, intransferível, de cada um de nós. Tem gente que pula da cama cantando, cheia de energia. Há quem não diga uma palavra nas primeiras horas da manhã.

 

Para alguns de nós, é um tormento trabalhar logo depois do almoço, enquanto outros engatam a terceira marcha no início da tarde, acelerando a produtividade.

 

O ritmo circadiano é ligado à luz do dia: o organismo naturalmente se prepara para o sono quando a luz cai.

Isso tudo é natural? Como podemos adequar o nosso ritmo pessoal ao de outra pessoa ou mesmo ao ritmo profissional? E será que isso é saudável?

 

Conversei com a médica do trabalho Rosylane Rocha, que também é presidente da Associação Nacional da Medicina do Trabalho, e ela explica que existe o ritmo circadiano — do latim cerca e dies, ou seja, que dura cerca de um dia:

 

“Nosso ciclo biológico dura 24 horas, conforme um ritmo adaptado às rotações de 24 horas do planeta”, diz Rosylane. “E está relacionado à presença da luz solar. O organismo se adapta à duração do período dia/noite. Nosso relógio biológico está formatado para acordar, comer, dormir. Por exemplo, ao anoitecer, a falta de luz avisa o nosso sistema nervoso central para secretar melatonina, hormônio responsável por sinalizar a hora de nos prepararmos para o sono reparador”.

 

Opa, então os seres que se consideram “corujas” estão forçando uma barra do organismo?

 

“Os chamados notívagos têm um hábito de vida não saudável, que trará consequências danosas à saúde”, aponta Rosylane.

 

“Um estudo recente da revista científica Chronobiology International evidenciou nos notívagos um risco 10% maior de morrer durante o período de seis anos e meio do estudo do que as pessoas diurnas. A pesquisa ouviu mais de 430 mil pessoas na Grã-Bretanha”, ela conta.



“Os notívagos que se acostumaram com outro ritmo podem sofrer algumas consequências do descompasso, como transtornos de sono e humor.”

Rosylane Rocha, médica

Taí! Somos animais e nosso organismo reage quimicamente à luz, preparando o sono.

 

Como a civilização nos proporciona iluminação artificial, a coisa deu uma bagunçada, mas o ideal mesmo é se programar para obedecer à natureza. Mas e se há necessidade de mudar o ciclo natural por questões profissionais ou de relacionamento?

 

“Não é simples, por assim dizer, fazer um acordo com o organismo para que ele funcione ao contrário do ritmo do planeta”, garante a médica. “O ser humano sofrerá, por certo, algumas consequências dessa inversão. A qualidade do sono muda. Há quem não consiga dormir durante o dia e pode apresentar transtorno do sono e do humor, alteração dos níveis de pressão sanguínea e de glicemia, distúrbios metabólicos vários, déficit de atenção, entre outras reações”.

 

Como dizia a música de Chico Buarque, “Eu sou funcionário / Ela é dançarina / Quando pego o ponto / Ela termina”.

 

Isso acontece! Um acordo – essa é a resposta.

 

Quando alguém está vivendo ciclos diferentes do nosso, a solução é negociar, e até mesmo ajudar o corujão a diminuir o ritmo noturno.

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