De jornalista a nutricionista, mudando a lei dos rótulos de alimentos no meio do caminho

A discriminação detalhada dos componentes de alimentos industrializados foi a vitória de um grupo de mães de filhos alérgicos, do qual Mariana era parte. Uma mudança e tanto!

13/04/2018



“Seja a mudança que você quer ver no mundo.”

Mahatma Gandhi

 

Mateus tinha três anos e desenhava com giz no pátio da escolinha. De repente, um corre-corre: ele apresentava inchaço e placas vermelhas, a conhecida e perigosa reação anafilática que pode até ser fatal. Mas como? A mãe, a caminho do pronto-socorro, não estava entendendo a reação do menino, severamente alérgico sim, mas ao leite! A resposta não demorou. Aquela marca de giz tinha, na composição, caseína, uma das proteínas do leite. E não havia indicação, na embalagem, da presença daquela substância.

 

A mãe de Mateus se chama Mariana Claudino, e sua história é um exemplo de mudança pessoal e coletiva. Jornalista de formação, Mariana se dedicou a pesquisar a alergia alimentar quando descobriu que o filho reagia violentamente ao leite de vaca.

 

“Comecei a estudar e a procurar informação”, conta ela. “Encontrei nas redes sociais um grupo de mães de alérgicos conversando sobre o assunto, querendo trocar e se fortalecer”, relembra.

 

 

Mariana Claudino e o filho Mateus / Arquivo pessoal

 

“Essa não é uma questão só de alérgicos. Todos nós precisamos saber o que estamos consumindo”

Esse grupo foi a semente de uma mobilização que mudou a vida de muitos brasileiros. A ideia, surgida em 2013, era exigir que os rótulos de produtos industrializados trouxessem informações claras.

 

“Havia mulheres de todos os cantos do país, com as mais diversas formações”, recorda Mariana. “Advogadas, designers, administradoras, publicitárias... todas com muita coisa em comum, especialmente a frustração de não conseguir saber exatamente o que havia num alimento”, explica. O primeiro nome do grupo? SACocheio. “Porque uma das nossas batalhas era com os Serviços de Atendimento ao Consumidor das indústrias. Acontecia de tudo, até receber uma informação pela manhã e outra completamente diferente à tarde”, explica.

E dessa atividade nasceu, no início de 2014, um movimento organizado, batizado de Põe no Rótulo, com uma dúzia de mães na coordenação, entre elas Mariana. A intenção era partir para uma mobilização da sociedade para a modificação da rotulagem.

 

“Fomos à imprensa, com apoio de formadores de opinião como os atores Adriana Esteves e Mateus Solano e o (ex-)jogador (de futebol) Zico, entre muitos outros. E o movimento viralizou. Afinal, essa não é uma questão apenas de alérgicos. Todos nós precisamos saber o que estamos consumindo”, diz.

 

Resultado: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamenta a normatização de produtos para o consumidor – fez uma consulta pública para avançar nessa questão dos rótulos, que patinava há dez anos. Participação recorde! E aprovou-se a mudança. Desde julho de 2016, é obrigatório nos rótulos o alerta para a presença de alimentos de alto risco para alérgicos, como leite, ovos, trigo, crustáceos, soja.



“Eu voltei à escola, me formei nutricionista e posso hoje oferecer às mães o conhecimento que não tive quando meu filho nasceu”

Para Mariana, era hora de ouvir um anseio antigo e mudar de rumo ainda mais radicalmente: foi cursar Nutrição. Mudou de carreira!

 

“Eu me apaixonei pelo assunto e quis conhecer profundamente metabolismo, funcionamento do organismo. Voltar à faculdade exigiu equilibrismo, mas eu estava decidida”, relembra.

 

Hoje, Mariana atende como profissional de Nutrição especializada em alergias alimentares, caso a caso, orientando e redirecionando o cotidiano de muitas famílias.

 

 

A guinada na carreira: de jornalista a nutricionista especializada em alergias alimentares / Crédito: Andréa Testoni

 

“O movimento chegou na hora certa para uma mudança coletiva, atendendo à sociedade civil, ao nosso direito de saber. Provocou essa mudança na minha vida. E posso oferecer às mães, através do meu conhecimento, aquilo que eu não tive quando Mateus nasceu.”

 

Não foi fácil. Mas foi muito, muito recompensador. Mateus, hoje com 8 anos, está forte e saudável. E, como diz Gandhi, essa foi a mudança que ela operou no mundo e em si própria. Uma bela, bela história.


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