Laços de família em belos retratos

Os esplêndidos trabalhos da fotógrafa gaúcha Fifi Tong mostram que o investimento amoroso no legado da família é um pilar da felicidade

por Márcia Peltier



Meu pai costumava dizer que tinha três filhas únicas – essa era a sua linda maneira de nos aconchegar completamente em seu amor. Cada uma de nós sempre se sentiu parte de uma família, ao mesmo tempo, em que éramos vistas como pessoas singulares e especiais. Minha avó Miná era uma mulher extraordinária, poeta, à frente do seu tempo, uma usina de força que me envolveu e impulsionou. Família: que coisa maravilhosa.

 

A fotógrafa gaúcha Fifi Tong levou a ideia de família para um projeto pessoal que resultou em algo espetacular. Tudo começou na virada dos anos 2000, quando ela abriu um baú onde estavam guardados deslumbrantes vestidos da sua tradição chinesa. “Resolvi fazer um retrato de quatro gerações: minha avó, Ting Heng Feng; minha mãe, Vivian Tong; minha filha e eu”, conta. “Quando revelei o filme, veio a ideia de retratar famílias de imigrantes, mostrando a força das raízes mesclada ao encantamento por uma nova terra.”

 

Nascia, assim, o projeto Origem, que desaguou em livro e exposições. Foram 15 anos de trabalho, viajando pelo Brasil todo, descobrindo histórias fantásticas, doçuras comoventes, aventuras e perigos que estavam refletidos nos olhos, mãos e trajes dos fotografados.

 

Narrativas como a da família Kimbuende Alphonse, vinda do Congo num cargueiro, clandestinamente, fugindo dos conflitos armados. Eles pensavam chegar à Espanha, mas deram os costados em Salvador. Ou a da família Rizzo, cuja matriarca Gioconda é tida como a primeira fotógrafa do Brasil; ou então a história dos Wierchowski, originários da Polônia.

 

 

/ Pai e filho da família indígena Mirindu, de São Paulo (SP)
/ Retrato da família da fotógrafa Fifi Tong, de origem chinesa
/ Três gerações da família Sá Morais, vinda de Portugal
/ Perfis de duas gerações da família grega Salis
/ Integrantes da família Dell'Orso Pacheco, que veio da Itália


“Eu acho que as famílias, apesar de tudo, querem estar juntas. São mais felizes quando estão reunidas.”

No curso de Origem, Fifi foi se encantando por outra ideia, que seria seu projeto seguinte: Tempo. “Reparei que as pessoas mais velhas eram as que me cativavam profundamente. Tinham mais expressão, mais calma. Comecei a fotografar brasileiros centenários, procurando indicações em todas as cidades onde eu chegava. Esse trabalho ficou pronto e é inédito no Brasil.”

 

Fifi tem toda a razão: as fotos de Tempo são especiais. Cada um dos centenários traz todo um universo no olhar, no rosto, nas linhas que traçam a história – a deles, a nossa, a de todos. Eles representam o nosso legado em suas lembranças e vivências, a força do carinho familiar. Se você tem a sorte de conviver – ou de ter convivido – com avós, tios e bisavós, certamente percebe como eles são vozes da humanidade que nos une.

 

Por isso, ver esse sentimento retratado nas imagens de Fifi Tong é uma maravilha.

 

/ O mineiro Antonio Eugenio Isidoro, de 101 anos, é um dos retratados na série Tempo
/ Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, retratada aos 103 anos, em Santo Amaro (BA)
/ A centenária baiana Maria Procópia de Jesus
/ Hilário Sousa foi fotografado aos 112 anos
/ O retrato de José Gaby, 101 anos, foi feito em Poá (SP)

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