O conhecimento em dois aromas

Buscando novidades ou honrando tradições, o importante é estar aberto ao crescimento e à renovação

09/10/2019 - por Márcia Peltier



Eu confesso: por mais que a nossa comunicação esteja hoje quase toda nas telinhas do celular e dos computadores, eu tenho saudades do papel.  Gosto da sensação de deslizar uma caneta na folha em branco.

 

Eu sei, eu sei, eu sei. Evoluímos, deixamos de destruir árvores que serviam para fazer polpa de celulose.

 

 

Mas é muito presente na minha memória sensorial o enorme prazer, a cada início de ano letivo, de abrir os cadernos novos, sentir aquela promessa de novas ideias, de uma ponte para o crescimento.

 

Quem não se lembra disso?

 

Acho que o aroma dos cadernos intactos, esperando pela nossa caligrafia, pelas anotações, era uma estrada aberta.

 

Alinhávamos os livros de geografia, história e matemática, a pasta ou a mochila, o estojo novo com lápis e borracha, mais tarde compassos e réguas. Novos professores. Novos amigos, quem sabe? E era hora de traçar a rota do ano, subir mais um degrau.

 

Para ganhar conhecimento, basta nunca perder o prazer de ler e escrever

Ainda hoje, olho com prazer para um caderninho novo, daqueles que você leva para anotar ideias e acompanhar aulas – claro, eu faço aulas, tenho imensa alegria em me reciclar. Por exemplo: estou estudando teatro grego! Ali, encontro ideias profundas do berço da civilização.

 

Foi pensando nesse perfume inebriante da folha branquinha dos cadernos que veio à lembrança outro aroma, talvez o oposto e complementar.

 

Meu avô materno, José da Rocha Ribas, era um homem incrível, que valorizava a arte e o conhecimento. Era um colecionador, especialmente de preciosos livros.

 

No seu apartamento, em Copacabana, me lembro de ver as belas lombadas, as letras douradas em capas de couro, nos livros distribuídas nas estantes da sala. Sua biblioteca, meu lugar preferido.

 

Mesmo quando pequenina, eu intuía que aqueles livros contavam histórias centenárias. Ali aprendi a amar e respeitar os livros e tudo o que eles representam na busca do conhecimento.

 

Na biblioteca do meu avô, aprendi a amar os livros e o que representam na vida da gente

E quando decidi escrever meu segundo livro infanto-juvenil, em 1991, foi num desses livros antigos que busquei uma linha narrativa que se aproximasse da ecologia, da proteção do meio ambiente e da floresta com seus habitantes. 

 

Meu avô já havia falecido, mas eu tinha ficado com um raro volume do século XIX.

 

Era o relato da expedição de um explorador espanhol, Francisco de Orellana, o primeiro a chegar ao Rio Amazonas, em 1542. 

 

Nessa expedição ele contava o encontro na foz do rio Nhamundá com uma tribo das mulheres guerreiras, as famosas e lendárias amazonas... O resultado foi meu livro “Os Povos da Floresta”...  e ainda dei à heroína o nome de minha avó, Miná!

 

Livros antigos, cadernos novos: perfumes muito diferentes, mas que apontam para um mesmo prazer, o de mergulhar em novos conhecimentos, na tradição ou nas novidades. Hoje, informações são muito mais acessíveis.

 

E para ganhar conhecimento, basta nunca perder o prazer de ler, escrever e cruzar pontes na  delicia de aprender.

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