Passos de afeto

Passos de afeto

Andar pelas ruas da sua cidade faz bem ao corpo, à alma e é uma atitude de mudança social

27/03/2019 - por Márcia Peltier



Caminhar, não resta a menor dúvida, é uma maravilha de exercício para o corpo. Venho me dando conta de que andar pelas ruas da cidade, pelo meu bairro, por novos locais, é também uma atitude de afeto.

 

Por décadas, no Brasil e na maior parte do mundo ocidental, substituímos a caminhada pelo carro, ou pelo transporte público, mesmo para percorrer distâncias curtas. Muitos de nós nos afastamos da vivência da cidade. Perdemos parte da nossa identificação com ela. E aí, como saber se aquela pracinha está bem cuidada, se as árvores continuam dando sombra, se as calçadas têm espaço...?

 

 

“Andar também é se relacionar com o todo”, diz o mestre em urbanismo Mauro Calliari, pedestre apaixonado e constante, e que escreve e estuda o assunto. “É também fruir a paisagem, os encontros e as descobertas. Com a vida motorizada, as ruas deixaram de ser espaço de vivência e para virar lugar de passagem. Mas a ideia de resgatar esse prazer nos espaços urbanos vem se tornando um consenso entre urbanistas.”



Nós perdemos identificação com a cidade por não nos aventurarmos pelas ruas. Por que não resgatar esse prazer?

Mas como caminhar, tendo que atravessar avenidas imensas e áridas, viadutos, túneis só para carros? Como ultrapassar as barreiras para o pedestre?

 

Quem anda, cuida

 

“Podemos e devemos retomar o espaço público indo para a rua, e assim revalorizando as regiões do nosso entorno”, continua Calliari, que escreve o blog Caminhadas Urbanas no jornal O Estado de S.Paulo e participa da ONG Cidadeapé. “Isso melhora a cidade para cada um e para todos. A noção de que eu pertenço à cidade e ela me pertence gera cuidado e consciência.”

 

É verdade. Quem abraça seu espaço, sentindo esse pertencimento, tende a cuidar dele, a exigir melhorias, a valorizar sua cidade. E a se sentir parte de um todo. E mais: também entramos em contato com a população que mora nas ruas, uma realidade que evitamos se estamos em meios de transporte público ou privado. Esse duro choque de realidade precisa nos fazer refletir, nos humanizar, ao olharmos para o outro que está tão desassistido. Quando nos apoderamos dos espaços públicos da nossa cidade, precisamos reconhecer quem não tem espaço algum. São os “invisíveis” da cidade.

 

É isso. Caminhar, abrir os olhos e o coração para o que está à sua volta, em uma nova maneira de viver, mais integrados e felizes. Vamos dar uma voltinha?

1 Perguntas:

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Perguntas recentes:

Ana Magdala

01 de abril de 2019

Amo caminhar. Mas, aqui ou ali, vemos a violência chegar até aqueles que saem simplesmente para se exercitar e são assaltados. Ou o problema - antigo - da irregularidade e má conservação das calçadas. Sabemos que temos problemas (e soluções) para todos os lados. A ONG tem ideias para esses dois pontos? Grata e boa sorte à equipe.

Márcia Peltier

03 de junho de 2019

Olá, Ana!

 

Levei a sua dúvida para a ONG Cidadeapé e veja só o que o Mauro Calliari me respondeu: 

 

"Obrigado pela sua questão. Você coloca um problema ou melhor dois problemas o que de fato atrapalham e muito a vida do caminhante.
A primeira questão é a da violência urbana. De fato, ninguém está imune a ela, pedestres, passageiros, motoristas. Existem estratégias para fugir do perigo mais evidente, como evitar ruas escuras, escadarias desconhecidas ou pontos de ônibus vazios. Uma evidência que vários pesquisadores colocam é a de qeê quanto mais gente na rua, de um modo geral, maior a sensação de segurança. Quanto à questão das calçadas, de fato nossas cidades têm uma carência estrutural de calçadas, travessias, acessos, sinalização. Existem cidades que recebem e tratam melhor solicitações deste tipo, mas não custa entrar em contato com associações de bairro e a própria prefeitura para pedir melhorias, sempre. É um direito do pedestre e precisamos de massa crítica para exigir a transformação. Quanto mais pessoas reclamarem, melhor."

 

Obrigada pela leitura


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