Quando o cinema vira um programa solidário

Mães de bebês e de crianças no espectro autista formam grupos para promover sessões especiais e não deixar a vida social de lado

09/01/2019 - Por Márcia Peltier



Dez anos atrás, Irene Nagashima estava numa alegria só com a chegada do primeiro filho, Max. Administradora de empresas, ela — cinéfila de carteirinha — só sentia falta do seu programa preferido: sair para ver um filme.

 

“Era uma tarefa impossível naquele momento, com Max mamando direto”, conta. “Mas um grupo virtual de mães, que eu frequentava, decidiu ir ao cinema levando os bebês. E assim fizemos.”

 

 

Escolheram assistir ao filme “Juno”, e o programa se prolongou em um café (“Quatro horas de conversa!”, diz Irene) e foi repetido várias vezes nas semanas seguintes, ganhando mais adesões. A experiência acendeu aquela lâmpada da ideia na cabeça de Irene.

 

“Percebemos que era essencial esse convívio, em um momento em que as atenções eram todas voltadas para o bebê. Seis meses depois, um pequeno grupo estava apresentando o projeto CineMaterna, para estender esse prazer a muitas mães.”

 

A percepção de Irene estava certíssima. O sucesso foi total. Hoje, o CineMaterna está em 52 cidades brasileiras, oferecendo sessões adaptadas para as recém-mamães: tem desde estacionamento de carrinhos até temperatura mais amena nas salas.

 

“Vimos que ir ao cinema é uma desculpa. O programa é um resgate da vida social dessas mães, uma oportunidade de se conectar com outras mulheres que estão no mesmo momento da vida, uma troca de experiências muito rica”, completa ela.

 

O projeto CineMaterna inspirou, alguns anos depois, a criação da Sessão Azul. As psicólogas Carolina Salviano e Bruna Manta perceberam que os pacientes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e suas famílias ficavam muito em casa, com receio de expor as crianças e adolescentes. Era final de 2015, e o projeto começou rapidamente a crescer.

 

“Nós já levávamos pacientes para shoppings e cinema, mas nem todo mundo tem paciência para alguém diferente, que às vezes se movimenta muito ou fala alto”, relembra Carol. E a Sessão Azul não é só de cinema: são realizados programas em outros locais, como teatros e aquários.

 

Cinema, teatro e passeios promovidos pela Sessão Azul reúnem famílias de pessoas no espectro autista, que adoram uma oportunidade de socialização

Luciana Calaza é mãe de Felipe, um rapazinho alto e bonito de 12 anos. Ela relutava em frequentar o cinema com o filho porque Felipe sofre de TEA, e sua condição faz com que a concentração e a imobilidade durante quase duas horas sejam difíceis.

 

“A escuridão da sala de projeção e o som muito amplificado também incomodavam muito o Felipe”, conta. “Por isso, fiquei muito feliz quando soube da Sessão Azul. Além do programa social, encontramos muita gente, trocamos ideias... Várias famílias já viraram amigas.”

 

O ambiente é especialmente preparado: a luz não é totalmente apagada, o som é mantido mais baixo e há terapeutas voluntárias de plantão. Com isso, o cinema se transforma em um encontro tranquilo e em uma bela oportunidade de convívio. A Sessão Azul já está espalhada por 16 cidades, de 9 estados brasileiros.

 

 “É maravilhoso fazer um programa social, sem ficar preocupada com as reações do Felipe”, completa Luciana.

 

Eu, que também sou cinéfila, fiquei matutando: como é lindo alcançar uma alegria, por meio de uma ida ao cinema, tão simples para a maioria de nós, mas tão significativa para quem enfrenta dificuldades ou está passando por transformações. É a força do carinho, um abraço, um amparo, embalados na diversão. É a vida em forma de alegria e solidariedade.

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