Sempre é tempo de começar e recomeçar

Sempre é tempo de começar e recomeçar

O exemplo de Valdir de Lima, um batalhador que decidiu aprender a ler depois dos 50 anos e se formou na faculdade aos 79

21/11/2018 - por Márcia Peltier



Antigamente, falava-se muito na crise dos 40. Talvez porque, décadas atrás, o patamar dos 40 anos significasse algo como uma “última chance” de mudar a vida, de perseguir objetivos que a gente realmente valorizasse. Hoje, dá até vontade de rir. Aos 40, aos 50, aos 60, aos 70: sempre é tempo de recomeçar.

 

Para o santista Valdir de Lima, a vida foi um eterno, corajoso e animado recomeço. Por muitos anos, ele levou sua vida e sustentou sua família trabalhando em vários empregos – como motorista, na estiva do cais do porto, em gráficas. Detalhe: seu Valdir era analfabeto. Uma coragem, um esforço, uma determinação incríveis, que viriam a seguir se manifestar em um desejo de estudar.

 

E ele começou a estudar aos 50 anos. Em reportagem do jornal carioca O Dia, ele conta: "Foram minha mulher e meus filhos que me ajudaram a ler. Comprava jornais, revistas e livros e ficava encantado com a história das pessoas, dos lugares". O passo seguinte foi mergulhar no ensino formal — aos 65, com a ajuda de um telecurso. Você acha que ele parou por aí? Que nada! Aos 71, seu Valdir decidiu que era hora de fazer faculdade.

 

 

“Chegou aquele senhor, com uma voz de locutor”, conta Rodrigo Rainha, na época coordenador do curso de História na Universidade Estácio de Sá e hoje gestor nacional de educação na instituição. “Ele estava receoso, inseguro, mas queria muito aprender. Eu disse: ‘Seu Valdir, é que nem um carro. Se não pegar, a gente empurra. Eu empurro, se precisar’. Ele riu e se animou!”

 

Para seu Valdir, a vida foi um constante recomeço, que se manifestou no desejo de estudar

O curso de História foi cumprido em oito anos. Valdir cruzou tempos difíceis, com a doença e o falecimento da mulher, mas seguiu em seu ideal. E a formatura teve momentos de grande emoção para todos.

 

“No curso, houve momentos em que ele deu banho de conhecimento em todos, revisitando em primeira mão a história recente do Brasil”, prossegue Rainha. “No dia da formatura, ele foi homenageado pelos colegas e disse: ‘Levantar aquele canudo foi libertador’.”

 

De onde vem toda essa energia, toda essa curiosidade, esse desejo de realização de Valdir de Lima? Claro que há um componente pessoal, de temperamento. Mas há, principalmente, a compreensão de que vale a pena se desafiar todos os dias. E que nunca é tarde para traçar um novo rumo.

 

“A capacidade de mudar de seu Valdir foi extraordinária, um exemplo para todos”, avalia Rainha. “Ele assimilou não apenas fatos, mas construiu uma reflexão, um novo modelo de pensamento. Foi lindo, me emocionei muito com essa trajetória.”

 

Nós também, Rodrigo.

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