Porteiros e idosos: amizade de mão dupla

Em um prédio da zona sul de São Paulo, porteiros e idosos tecem uma relação mútua de amizade e carinho

06/06/2018



Há oito anos, Raimundo Nonato Alves dos Santos, 47 anos, trabalhava como vigilante em um prédio em Cuiabá (MT) quando viu na televisão uma reportagem sobre o programa Porteiro Amigo do Idoso. Inspirado, ele logo procurou o síndico para se candidatar a uma vaga de porteiro quando seu contrato acabasse.

 

“Quando vi a reportagem passando ali no Rio de Janeiro, em Copacabana, eu achei interessante aquela parceria, aquela amizade verdadeira, sabe?”, recorda o maranhense de Santa Quitéria. “Trabalhando como segurança, era proibido ter comunicação com os moradores, pra não dar problema. Eles só podiam falar com a gente naquela janelinha de vidro.”

 

O síndico topou a proposta de Raimundo, e foi assim que ele começou a trabalhar como porteiro. No fim, de 2017, surgiu a oportunidade de ir para São Paulo (SP), e lá foi ele mudar de cidade de novo. Curiosamente, ele arranjou emprego em um prédio na Chácara Inglesa (zona sul de São Paulo) e foi escalado pela subsíndica Ana Maria Cristina Afonso para participar do treinamento do Porteiro Amigo do Idoso com outro porteiro e a auxiliar de limpeza. “Eu fiquei surpreso, era tudo o que eu queria. Agora, eu posso ser mais amigo das pessoas, mais companheiro, é outra coisa”, diz.

 

 

No seu dia a dia, Raimundo convive bastante com os moradores mais velhos, que são numerosos. Quando algum deles entra no elevador ou aparece no portão, ele logo se apronta para recebê-los e ajudar a carregar sacolas. Com os mais chegados, pega na conversa quando eles descem para fazer uma caminhada nas áreas comuns.

 

“Os porteiros aqui são pessoas muito agradáveis, ajudam muito as pessoas mais idosas. A gente aqui se sente muito segura, eu sei que dá pra contar com eles”, diz a moradora Izel Kalil Ponzini, 84 anos. Há 21 anos no edifício, ela vive sozinha e conta que foi muito bem cuidada pelos porteiros e pelas vizinhas quando teve de ficar de molho em casa por causa de uma queda.

 

“A gente aqui se sente muito segura, eu sei que dá pra contar com eles”,
Izel Kalil Ponzini, 84 anos.

Todo dia, Raimundo e seus três colegas ligam para todos os idosos do prédio para saber se está tudo bem e se precisam de alguma coisa, pois muitos moram sozinhos. Se eles não respondem, ele liga de novo ou aciona outro funcionário para subir, bater na porta e falar com o morador – uma medida de segurança para socorrer em caso de um acidente doméstico, como uma queda, por exemplo. “Já aconteceu de uma moradora cair e não ter como se comunicar. Se a gente não tivesse insistido, ninguém teria descoberto que ela tinha sofrido um acidente”, diz o porteiro.

 

Essa checagem diária rende conversas cotidianas que se transformam em uma relação mútua de cuidado e de amizade. “Ele sempre me telefona pra saber se eu estou boa, diz que faz tempo que não me vê”, conta Zelma Zulzke, 78 anos, moradora do prédio há 28 anos – ela morou muito tempo sozinha em seu apartamento, que hoje divide com a filha e a neta. “O Raimundo e os outros porteiros são muito prestativos, muito bonzinhos, me ajudam em tudo.”

 



“Aqui eu me sinto muito motivado por ser tratado com tanta atenção, com tanto carinho”

Raimundo Nonato Alves dos Santos

O interfone, porém, tem mão dupla, e Raimundo conta que os moradores mais velhos também ligam para ele. “Eles querem saber quem está na portaria, conversar um pouco, avisar que estão mandando um pedaço de bolo pelo elevador”, conta Raimundo. Zelma confirma que tem mais paparico: “A gente é amigo deles também. Eu sempre faço meu aniversário no salão de festas. Quando tem festinha, a gente leva para os  porteiros prato de doce, salgado...”

 

Essa convivência calorosa alegra o coração de Raimundo. “É muito gostoso trabalhar com eles, não tem preço. Aqui eu me sinto muito motivado por ser tratado com tanta atenção e carinho. É isso que me dá força pra pegar o primeiro ônibus às 3h da manhã pra trabalhar. Se me chamassem para ir trabalhar em um prédio com pessoal mais jovem eu recusaria.”

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