Quando todo o prédio é amigo do idoso

Do porteiro à auxiliar de limpeza, a equipe toda faz a sua parte para cuidar bem dos moradores mais velhos

06/07/2018



A mais nova turma do programa Porteiro Amigo do Idoso mostrou que não é só o porteiro, mas todo o prédio pode se tornar amigo dos idosos – incluindo o zelador e o pessoal que trabalha na limpeza e em serviços gerais. No último mês de abril, profissionais de diferentes áreas e responsabilidades dentro de um condomínio participaram da formatura em São Paulo. 

 

"A gente que está na portaria está sempre de olho na segurança, e é o primeiro que vê as coisas acontecendo, mas todo mundo ajuda", concorda o porteiro Oseas Mota do Nascimento, 44 anos, que trabalha em um prédio em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, e foi um dos novos profissionais capacitados pela iniciativa pioneira da Bradesco Seguros.

 

Em um ano, o estado de São Paulo já conta com 257 pessoas treinadas para atender bem a esse público. Desde o início do programa, em 2010, 3.536 profissionais de todo o país passaram por esse treinamento gratuito que ensina a cuidar dos idosos do prédio, ajudá-los em suas tarefas no dia a dia e socorrê-los em caso de emergência.

 

Equipe afinada

Oseas conta que já tinha um olhar especial para os idosos do seu prédio – no emprego anterior, ele foi o primeiro a ver, pelas câmeras, que a mãe de uma moradora havia rompido o joelho quando descia pelo elevador, e imediatamente chamou o socorro. Mas, depois do curso, houve uma conversa com os outros funcionários para eles trabalharem mais afinados para zelar pelo bem-estar dos veteranos do condomínio. No dia a dia, a convivência entre os moradores mais velhos e o time do prédio é bem tranquila. “Eles gostam muito de conversar, falar da família. É uma convivência muito boa, a gente vai ficando amigo”, conta.

 

Cuidado que vale para todo mundo

O auxiliar de serviços gerais Márcio Santos Lima, 36 anos, trabalha com Oseas e, como ele, cultiva um olhar especial não só para os idosos do seu prédio, mas também para todos os outros que encontra na igreja que frequenta, na escola do filho e até no ônibus. “Outro dia uma senhora passou mal na escola do meu menino. Graças a Deus estava lá na hora e fiz os primeiros socorros que aprendi no curso, até ela ir para o hospital”, conta Márcio, que no dia a dia está sempre à disposição para ajudar os moradores mais velhos com as sacolas e para bater um papo. “Além da amizade que eu já tinha com um casal do prédio, agora tem esse olhar de cuidado, e vale para todo mundo, em qualquer lugar”, explica.

 



“Outro dia uma senhora passou mal na escola do meu menino. Estava lá na hora e fiz os primeiros socorros que aprendi no curso.”

Márcio Santos Lima, auxiliar de serviços gerais

De amiga a cuidadora de idosos

Zélia Sousa

A piauiense Zélia Sousa, 45 anos, gosta de cuidar de idosos desde a infância. Vendo a avó na cadeira de rodas, ela sentiu uma necessidade de estar mais perto dela para conversar e para ajudar nas tarefas. “Meu coração aquecia, porque eu via que ela ficava feliz pela meia horinha que eu sentava ali para falar com ela. Porque muitas vezes o idoso é deixado de lado, as pessoas não têm a preocupação de olhar, de saber como está, de ficar pertinho, dar um carinho, um minuto de atenção.”

 

Esse desejo fez Zélia começar um curso de enfermagem que ela não conseguiu terminar. No prédio onde trabalha como auxiliar de limpeza, na Praça da Árvore (zona sul de São Paulo), ela retomou o contato com idosos e fez novos amigos. 

 

Ao tocar a campainha para recolher o lixo, ela com frequência recebe um convite para entrar e para tomar um café. “Aqueles cinco minutos que você dá de atenção, eles logo abrem aquele sorriso, é tudo. Qualquer trabalho é digno, mas se sentir acolhida assim não tem preço”, diz Zélia.

 

“É importante ter um olhar para o idoso porque eles um dia já cuidaram de nós.”

Zélia Sousa, auxiliar de limpeza

Durante o curso, Zélia se aproximou ainda mais da realidade dos idosos. “A dinâmica de se colocar no lugar deles mudou a minha visão. Quando eu coloquei os pesinhos no pé, o feijão no sapato, senti na pele a dificuldade que o idoso sente para andar, descer uma escada. Para mim, isso foi muito marcante”, lembra. “Agora quero voltar a fazer enfermagem, pretendo fazer o curso de cuidadora. É importante ter um olhar para o idoso porque eles um dia já cuidaram de nós. Chegou o momento de a gente cuidar deles.”

Mais atenção no dia a dia

João Mattos Pereira Júnior

Outro aluno que se formou nessa turma, João Mattos Pereira Júnior, 50 anos, trabalha no mesmo prédio desde 1995, quando chegou a São Paulo vindo de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Nesse prédio do Campo Belo (zona sul), ele começou como faxineiro, foi porteiro e agora é zelador.

 

João está sempre de olho em tudo, mas só depois de fazer o curso passou a olhar para o piso do prédio de uma maneira diferente. “Achei interessante aprender sobre acessibilidade. Às vezes, tem um degrau ali que poderia ser uma rampa, que podia ser mais baixo, o piso liso deixa o idoso vulnerável. Eu já via essas no dia a dia, mas não tinha noção de como podia mudar”, conta João.

A convivência com moradores veteranos ele cultiva desde que chegou a São Paulo. Aliás, nessas duas décadas trabalhando no prédio, ele viu muita gente ficar mais velha. “Acho muito legal ver a passagem do tempo, então não quero sair do prédio, não. Já lidei com idoso muito tempo, mas agora vou lidar melhor ainda, porque o curso nos ensina a ser mais prestativos e mais humildes.”

 

Agora, João conta que está mais atento para as necessidades dos moradores e visitantes veteranos. “Outro dia chegou um senhor lá, passou o portão e ficou parado do lado de dentro, acho que estava esperando alguém ajudar. Eu percebi e fui logo ajudar ele a subir os degraus. Ele me agradeceu e eu vi a cara dele de felicidade. Tenho certeza de que quando eu for idoso também vou precisar de alguém. Se aparecer mais cursos sobre as necessidades dos idosos, eu venho de novo!”

/ O zelador João Mattos Pereira Júnior durante a formatura de uma das turmas do Porteiro Amigo do Idoso
/ Os formandos de uma das turmas do Porteiro Amigo do Idoso em São Paulo
/ Cerimônia de formatura da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Formandos de uma das turmas da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Nelly de Moura e Edvaldo da Silva exibem seus diplomas na formatura da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Zelia Sousa e Ériton de Melo durante a formatura da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Luis Carlos dos Santos e Claudiane da Silva durante a formatura da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Rebeca Maciel, Josefa dos Reis e Antônio José Lima participam da formatura da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ A auxiliar de limpeza Zélia Sousa foi uma das formandas da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Turma de formandos da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ O porteiro Raimundo Nonato durante a formatura de uma das turmas do Porteiro Amigo do Idoso
/ Formandos da turma de abril da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso
/ Formandos de uma das turmas da iniciativa Porteiro Amigo do Idoso

Compartilhe:

0 Comentários:

Comentário enviado
para aprovação