Robson Caetano - A final de 1988: o dia em que eu descobri o que é ser olímpico

A final de 1988: o dia em que eu descobri o que é ser olímpico

As palavras da minha primeira treinadora fizeram sentido na largada daquela final dos 100 metros em Seul

19/07/2019 - por Robson Caetano



Minha história olímpica tem muito de preparação mental e desenvolvimento físico, mas ela é, principalmente, uma jornada que me levou a uma das provas de atletismo mais polêmicas da história: os 100 metros dos jogos de Seul, em 1988.

 

Desde que comecei a praticar o esporte, fui condicionado a estar numa final olímpica. Com minha primeira técnica, a professora Sonia Ricette, psicóloga e profissional de educação física, sempre trabalhei a mente, para não me abater com nada.

 

 

Foi assim que, ao longo de 5 ou 6 anos, fui me preparando para os meus primeiros jogos. Apesar de ainda não enxergar ou entender, todos os dias, quando eu chegava para treinar, eu ouvia a seguinte frase: “Você é olímpico”.

 

Depois da minha primeira participação em uma competição dessa importância, em Los Angeles (1984), vi que era possível estar numa final individual. Quatro anos depois, aos 22 anos, eu participava pela segunda vez da competição.

Todos os dias, quando chegava para treinar, eu ouvia a seguinte frase: “Você é olímpico”.

Mesmo sendo o melhor atleta de velocidade das Américas, as regalias eram reduzidas. Não tínhamos massagista nem fisioterapeuta que entendessem de atletismo — os que tínhamos eram do futebol. Por essa razão, fui me consultar com uma norte-americana, Tammy Richmond, e com o massagista Luiz Carlos, que viraram meus amigos.

 

A primeira coisa que lembro dos jogos de 1988 era o clima tenso entre meus adversários Carl Lewis e Ben Johnson. Isso já estava em todos os tabloides desde 1987, depois que Johnson quebrou o recorde mundial em Roma, e atacou Lewis, chamando-o de corredor covarde.

 

Durante a preparação para os jogos, os dois trocaram declarações polêmicas que colocaram em guerra os velocistas norte-americanos e canadenses — até os mais tranquilos, como Calvin Smith e Dessai Williams, entraram nessa onda.

 

Foi assim que começamos as eliminatórias, com mais de cem atletas correndo para tentar estar numa final histórica como aquela. Eu corri contra Ben Johnson na segunda eliminatória: ele chegou em primeiro, e eu, em segundo. A cada corrida que fazia, eu me fortalecia.

 

Na semifinal, corri contra Lewis e cheguei muito próximo. Eu me senti muito bem. Naquele tempo, as semifinais aconteciam duas horas antes da final, portanto, era correr, manter o aquecimento e colocar o mental para trabalhar. Como eu tinha chance de medalha, até o massagista do futebol foi para o estádio para dar aquela moral.

 

Quando os oito atletas foram para a parte que antecede a sala de chamada, os ânimos ainda estavam tranquilos. Além da briga entre os corredores, alguns episódios deram um molho àquela final. Lewis havia perdido o pai naquele ano, e Johnson havia saído de uma relação conturbada. Ou seja, de um lado estava o norte-americano querendo honrar o pai, que o levou a praticar atletismo, e do outro o canadense querendo provar que os problemas emocionais não atrapalhariam sua performance.

 

Na sala de chamada, que ficava bem perto da posição de largada dos 100 metros, passamos 15 minutos que me pareceram 15 horas. A atmosfera estava incrivelmente tensa. Tudo aquilo era muito incrível, surreal, quase indescritível — e lá estava eu no meio daquela final.

 

Saímos da sala de chamada direto para a largada. No estádio, havia 80 mil pessoas fazendo um barulho ensurdecedor, na manhã de 24 de setembro, e foi incrível estar naquela raia 1 para correr. Eu entrava pista adentro e lembrava das palavras da minha primeira técnica: “Você é olímpico”.

 

Tudo aquilo era muito incrível, quase indescritível — e lá estava eu no meio daquela final.

Procurei meu técnico Carlos Alberto naquele cantinho, e não o encontrei, pois ele ficou tão nervoso que não conseguiu ver a prova. Eu me senti um pouco sozinho, mas não tinha muito o que fazer, a não ser correr o mais rápido que podia.

 

O estádio ficou em um silêncio absolutamente impenetrável; quando o tiro de partida foi dado, o próprio público passou a empurrar cada velocista daquela final— e o resultado foi algo realmente quase inacreditável.

 

Ben Johnson ficou em primeiro, com a marca de 9s79, algo impensável para a época.

 

Carl Lewis chegou em segundo, com 9s92.

 

E todos os outros coadjuvantes nessa prova fizeram seus papéis de forma digna. Para mim, foi uma honra chegar nessa final limpo (pois depois foi confirmado o doping de Ben Johnson) e me sair bem, representando o Brasil de forma leal e digna.

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