Robson Caetano - A medalha que eu perdi porque não ouvi meu corpo

A medalha que eu perdi porque não ouvi meu corpo

Eu tinha tudo para ser medalha de ouro em Barcelona, mas um detalhe me fez chegar em quarto

22/11/2019 - por Robson Caetano



Às vezes, o corpo nos dá sinais de cansaço, que a gente teima em não entender ou não interpretar, não é mesmo? Eu tenho certeza de que você já passou por algo parecido. Acontece com todo mundo.

 

Ouvir esse aviso é fundamental para que você tome a atitude certa. Hoje, aos 55 anos, eu falo isso para todos os meus alunos. “Calma, meus pimpolhos!” é uma frase que eu não me canso de repetir. Mas nem sempre foi assim.

 

 

Um ciclo olímpico com muitas expectativas

Eu sempre tive que treinar a exaustão para poder competir contra atletas que apelavam para o dopping. Entre as décadas de 1960 a 1980, isso era uma prática muito comum.

 

Eram dias, meses e anos de muito treinamento e sacrifício. Foi com essa entrega que eu conquistei uma medalha dos 200m na Coreia do Sul e cheguei à final dos 100m rasos nos Jogos de 1988. Meu corpo estava no limite.

 

Os resultados foram promissores e por isso, eu e meu técnico, Carlos Alberto Cavalheiro, resolvemos continuar treinado forte para buscar o lugar mais alto do pódio quatro anos depois em Barcelona. Uma estratégia que, olhando agora, foi um erro.

 

Em 1989 eu atingia o meu ponto máximo na preparação. Isso me levou a ser o melhor atleta do mundo na prova dos 200 metros e o sétimo nos 100 metros. Eu jamais poderia imaginar que eu poderia chegar tão longe em pouco mais de uma década de dedicação exclusiva ao atletismo.

 

Decisão errada

Após alcançar o melhor da minha forma, eu e meu técnico deveríamos ter tirado o pé na preparação para Barcelona.

 

Ao invés de treinar, sei lá, ter feito uma viagem para pescar ou então investido em outra atividade para aliviar o estresse. Mas não. Ao invés disso, aceleramos ainda mais.

 

Já faz um tempo, mas eu lembro exatamente daquele dia de 1990 que foi crucial para que tempos depois eu perdesse uma medalha que era dada como certa em Barcelona.

 

Eu estava em San Sebastian, na Espanha, e meu técnico havia definido um treino muito específico:

 

Eu deveria fazer quatro corridas de 100 metros para 9,8 segundos. Essas quatro corridas eram divididas em dois blocos de corridas. E eu deveria fazer isso duas vezes, com intervalo de 3 minutos de descanso entre cada corrida e de 12 minutos entre as séries. Ao final, eu deveria correr 300 metros para 30,5 segundos.

 

Ao fim da primeira série me sentia ótimo, tinha feito as duas primeiras corridas para 9.5 e 9.7 segundos.

 

O meu técnico já tinha ficado satisfeito, mas eu insisti em realizar a segunda série. E o que eu ganhei com isso?

 

Uma lesão no musculo reto femural da perna esquerda e consequentemente uma temporada de tratamento por conta disso. Em 1990 eu fui do céu ao limbo por conta desta lesão.

 

Se tivesse respeito o meu corpo e colocado mais alegria e diversão na preparação, eu teria tido outra sorte.

O retorno

O retorno em 1991 foi sofrível, mas com alguns resultados muito bons. E quando achava que estava pronto para acelerar outra vez, voltei a sentir o mesmo incômodo na perna contrária.

 

Ou seja, eu estava sobrecarregando a perna direita.

 

Mesmo não sendo uma lesão grave, esse novo incômodo afetou a minha preparação. Por quê? Porque o atleta de alto rendimento não é apenas potência muscular. Quando você tem problemas musculares que o deixam com medo, isso compromete todo o trabalho.

Em Barcelona, a medalha que escapou

Mesmo assim, em 1992, a expectativa era enorme.

 

Como eu disse, participei de alguns eventos muito bons e terminei o ano anterior como segundo melhor do ranking mundial da prova dos 200 metros rasos.

 

Além disso, o então número 1 do mundo, Michael Johnson, teve uma infecção estomacal e não participou dos jogos de Barcelona.

 

Estava tudo conspirando a favor do ouro olímpico. Mas eu sucumbi ao fator mental e não segurei a onda.

 

Eu iniciei a minha jornada naqueles jogos nos 100 metros rasos, apenas para testar a minha condição. Corri muito bem a eliminatória, ficando em primeiro com 10,24 segundos, e larguei a prova nas semifinais para me concentrar apenas nos 200 metros e na medalha de ouro. Mas nada disso aconteceu.

 

O fato é que venci as duas eliminatórias, mas na semifinal, o fantasma da lesão retornou. E isso me afastou do foco.

 

E o foco, para um atleta de alto rendimento, é tão importante quanto a preparação muscular.

 

No fim, após o tiro de largada, saí da curva disputando a primeira posição, e cai para segundo, terceiro e, bem no fim, o pódio escapou.

 

Ainda me recordo da entrevista que dei para a extinta TV Manchete após da prova.

 

Quando o repórter me perguntou como eu me sentia, fui às lágrimas. Eu sabia que tinha errado a minha preparação daquele ciclo olímpico.

 

Olhando para trás, eu penso que se tivesse respeitado o meu corpo – em vez de desafiá-lo – e colocado mais alegria e diversão na preparação, eu teria tido outra sorte.

 

É por isso que eu sempre digo aos meus alunos para ouvir o que o corpo fala, e sobre a importância de mudar de ares e variar o treinamento.

 

Nem sempre chegar ao limite do corpo e abusar do treino forte e puxado serão sinônimos de sucesso.

 

Um forte abraço e #comeceagora.

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