A medalha que nasceu de um tapa na mesa

Em 1988, o judoca Aurélio Miguel me mostrou como a autoconfiança pode fazer a diferença para vencermos nossos desafios

Robson Caetano



Os Jogos de Seul, em 1988, foram muito mágicos pra mim em vários aspectos. Em primeiro lugar, eles simbolizam a redenção de um fracasso em 1984, quando, por uma decisão equivocada, joguei fora a chance de participar da final do revezamento 4 x 100m – mas essa é outra história de bastidor que um dia desses eu conto.

 

Naquele ano, as minhas esperanças de medalha estavam mais do que amadurecidas, pois eu já conhecia melhor meus adversários (por tê-los estudado) e estava confiante até nas superstições. Ao longo do tempo, elas foram perdendo força, mas naqueles jogos eu estava realmente disposto a fazer o possível e o impossível para conquistar o ouro, a prata ou o bronze.

 

Essa história de bastidor tem como personagem um amigo chamado Aurélio Miguel. Durante um momento especial na sala de TV, assistindo competições de judô de outras categorias, ele bateu a mão aberta na mesinha que ficava logo em frente ao sofá onde estávamos e disse para si mesmo em voz alta: “Eu vou ganhar essa medalha olímpica!”. Naquele momento, eu dei uma risada de canto de boca, mas procurei manter a pose.

 

 

No dia seguinte, lá estava ele no tatame disputando a primeira luta. E não é que ele ganhou mesmo? Foi vencendo as lutas e chegou à final contra o alemão Marc Melling. Bom, naquele momento eu já estava paquerando a mesa, como se fosse algo projetado pelo Aurélio em uma de suas premonições. Mesmo sem dar um golpe efetivo, mas mostrando combatividade, ele realmente conquistou o ouro olímpico.

 

Sabe o que faltou? Eu ter dito em voz alta, gritado mesmo: “Eu vou ganhar o ouro!”

Dali em diante, quando começaram as provas de atletismo na segunda metade dos jogos, eu ia encarar os 100 metros e seria um dos primeiros a entrar na pista. Na véspera de todas as minhas corridas, eu ia na sala de TV e batia na mesa de mão aberta, dizendo mentalmente pra mim mesmo que iria ganhar o ouro. Não ganhei: fiquei em quinto lugar nos 100 metros e conquistei o bronze nos 200 metros. Assim, fui o primeiro e único brasileiro a participar, em uma mesma edição, das finais dos 100 e 200 metros rasos.

 

Depois, sabe a que conclusão eu cheguei ao analisar a minha performance na batida da mesa? Sabe o que faltou para o ouro? Eu ter dito em voz alta, ou seja, gritado mesmo: “eu vou ganhar o ouro!”, sem ligar se alguém risse de mim.

 

No final, o que vale é a medalha no peito. Como fui tímido em meu investimento, obtive um resultado tímido. Nós somos o resultado de nossas escolhas, desejos e, principalmente, da nossa vontade de sucesso. Portanto, não tente; faça. Não sonhe apenas: ouse e faça de sua vida aquilo que você projeta ser.


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