Robson Caetano - O dia em que o esperto se deu muito mal

O dia em que o esperto se deu muito mal

Em 1989, eu estava correndo muito bem. A ponto de um medalhista de ouro tentar tirar proveito de uma lesão para me vencer nos 200 metros

25/01/2019 - por Robson Caetano



Oi! Olá! Como vocês estão?

 

Gente, essa é uma das histórias de bastidor que eu adoro contar. Em 1989, eu estava em um grande ano. E entre os meus adversários estava Carl Lewis, famoso por ter igualado o feito de Jesse Owens (aquele que deixou Hitler irritadinho em 1936) com suas 4 medalhas de ouro nos Jogos de Los Angeles em 1984. Um grande atleta.

 

Mas, voltando à história. Em 1989, eu estava bem, sempre buscando o lugar mais alto do pódio e querendo ser o número 1. Uma das competições mais importantes do atletismo naquele ano aconteceria em Bruxelas, na Bélgica, o Grand Prix. Mas, antes dela, havia uma competição na Alemanha, em uma cidade chamada Koblenz, importantíssima para o desenrolar dessa memória.

 

 

Primeira parada, Alemanha

 

Naqueles tempos, existia uma superequipe de atletismo, a Santa Monica Track Club. Eles estavam nessa competição representando os Estados Unidos e, entre seus integrantes, havia a atração principal: Carl Lewis.

 

Na Alemanha, eu estava inscrito na prova dos 100 metros rasos, e pouco antes da minha prova aconteceria a disputa do 4x200 metros, em que o time norte-americano, liderado por Lewis acabou batendo o recorde mundial e levando o público do estádio à loucura.

 

Depois daquele momento viria a minha prova e o Carl ficou observando. A prova foi acirrada e perdi para o norte-americano Mark Witherspoon por 0.01s. Só que, na chegada, projetei o corpo para a frente e acabei caindo, ralando minhas costas e sentindo uma leve pontada no final da região lombar. Isso era um desastre já que dias depois eu correria na Bélgica a prova em que eu estava invicto no ano, os 200 metros rasos.

Na chegada, projetei o corpo muito para frente e acabei sentindo uma lesão

Eu me lembro do meu técnico na época, Carlos Alberto Cavalheiro, o Beto, perguntando se eu gostaria de voltar para o Brasil. Mas, me veio à cabeça a final do Grand Prix de 1987, na mesma cidade, quando acabei deixando escapar a chance de me tornar primeiro do mundo. Na hora respondi que não, que iriamos para Bruxelas terminar o ano como número 1 do mundo.

 

Tratamento positivo

 

Eu entrei em tratamento intensivo, pois precisava ficar em condições em três dias. Ser jovem e positivo fez toda a diferença: eu consegui ficar pronto para o combate.

 

Carl Lewis, quando viu a minha queda, fez logo sua inscrição na prova dos 200 metros na Bélgica. Seria o reencontro entre dois atletas que, um ano antes, em Seul, haviam subido ao pódio nesta mesma prova.

A prova tomou uma proporção enorme, pois a presença da lenda norte-americana era algo realmente importante. A organização do evento fez uma reunião com todo o time norte-americano e decidiram que eu iria ficar numa raia na frente deles. Isso foi comunicado ao Beto, que veio me contar o esquema dos caras.



Correr com seu adversário na alça de mira nos 200 metros pode fazer toda a diferença no seu ritmo de prova.

Vai ou não vai?

 

Chegado o dia, eu pedi para aquecer longe do estádio. Fui para o Átomo, um dos cartões postais de Bruxelas, e ali nos jardins comecei a aquecer e a agradecer a Deus por estar pronto para me tornar o número 1 do mundo nos 200 metros. Mas as dores e os arranhados no corpo ainda incomodavam muito.

 

Passei por um massagista para finalizar meu processo de aquecimento e aí a chuva começou a cair forte. Naquela altura, apesar de extremamente focado, eu não sabia se iria conseguir realizar a prova.

 

Mas, a chuva deu uma trégua, a pista drenou e fomos para a largada em fila indiana. Na minha frente, estavam um britânico e um francês que não me lembro os nomes, e um outro francês chamado Daniel Sanguma (que ficaria em segundo lugar no final), nas raias 8, 7 e 6, respectivamente. Eu estava na raia 5. Lewis estava na 4 e Floyd Heard, outro norte-americano, na 3.

 

Ficar na frente deles foi a escolha acertada do Beto, e mais uma vez eu senti toda aquela tensão de 1988. Afinal, era mais uma vez estar cara a cara com quem me venceu um ano antes naquela mesma prova.

Às suas marcas

 

O árbitro da prova se aproximou e pediu para tirarmos os agasalhos. Ainda fiz um teatrinho, fazendo cara de dor para meus adversários, como se dissesse “não se preocupem tanto comigo”.

 

“Às suas marcas”, disse o árbitro da partida para a gente se preparar para a largada. Parecia que o estádio tinha se esvaziado. Eu só conseguia sentir as gotinhas finas de chuva batendo nas minhas costas.

 

“Pronto”....

 

Bang!

 

Era como se uma força me puxasse ou empurrasse para a chegada

A partir do tiro de largada, um transe sem precedentes tomava conta de mim. Eu corria aproveitando as luzes dos refletores que projetavam a sombra dos meus adversários no chão, e as passadas deles se afastando de mim. Quando entrei na reta final, um túnel surgiu e parecia que eu não precisava fazer mais nada. Era como se uma força me puxasse ou empurrasse para a chegada. Ao cruzar, levantei o braço com o punho cerrado comemorando a vitória.

 

Uma amiga muito querida, a velocista jamaicana Gracie Jackson, me abraçou e me disse: “Olhe para o tempo, Da Silva”. E quando virei, lá estava o novo recorde sul-americano da prova: 19.96 segundos, que durou longos 10 anos até ser quebrado novamente.

 

Vez ou outra eu ouço alguém tirar uma onda com o adversário quando alguém quer se dar bem e acaba dando com os burros n’água, como foi o caso do Carl Lewis, que ficou em quinto. Naquele dia, ele não conseguiu passar por cima de um brasileiro que se tornou o número 1 dos 200 m no atletismo mundial e que venceu 30 das 31 provas dessa categoria em 1989.

 

Quer ver como foi essa prova que eu contei aqui? O perfil da Confederação Brasileira de Atletismo no Facebook tem a recordação da época.

 

Um forte abraço.

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