O valor daquele cantinho do estádio

Na raia, eu não estava sozinho: era só ver meu técnico naquele ponto especial para me encher de confiança

por Robson Caetano



Durante os Jogos de Seul, em 1988, a primeira prova que eu iria disputar era a dos 100 metros. Eu e meu técnico, Carlos Alberto Cavalheiro, havíamos combinado a seguinte estratégia: fazer uma prova eficiente nos 100 metros e correr pela medalha dos 200 metros, porque havia pouca chance de chegar à final dos 100 m.

 

Combinado o plano, fui para o aquecimento com o Beto (como chamo meu técnico até hoje). Chegando na pista, olhamos em volta e vimos grandes equipes se preparando: Grã-Bretanha, Estados Unidos, França, Alemanha, Holanda, Finlândia... A gente se colocou em um cantinho perto da entrada para a pista de chamada, fizemos nossa caminhada e eu fui para a eliminatória sem muita pretensão.

 

Um detalhe muito importante era que o Beto, meu técnico, sempre ficava em uma parte específica do estádio. Era para esse ponto que eu olhava antes de cada corrida.

No final, ganhei a primeira série, comemorei muito esse êxito e voltei à tarde para a segunda eliminatória. Resultado: fiquei em segundo lugar, só atrás de Carl Lewis, uma lenda do atletismo, que ganhou nove medalhas de ouro em sua carreira. Isso me deu muita motivação para seguir em frente.

 

Esse resultado fantástico na eliminatória, porém, não era o segredo da minha confiança. Na verdade, um detalhe muito importante era que o Beto, meu técnico, sempre ficava em uma parte específica do estádio, em uma entradinha perto da largada. Era para esse ponto que eu olhava antes de cada corrida. Mesmo que na pista eu estivesse sozinho, eu olhava para lá e via um ponto de apoio. É incrível como somos dependentes uns dos outros, não é?

Dessa forma cheguei até a semifinal, e para nós estava ótimo, porque eu havia apurado a minha velocidade final em uma espécie de treino de luxo para a prova dos 200 metros. Antes de entrar na pista, eu precisei de um massagista, e o Felix, do futebol, veio nos socorrer. Ele deu aquela preparada na minha perna antes da prova, continuando o trabalho que eu tinha feito com outro grande amigo, o Pedrosa, que cuidava dos atletas do Catar. Ele acabou com as minhas dores musculares terríveis e ajustou a minha coluna antes da prova dos 100 metros, um segredo que eu estou revelando para vocês depois de quase 30 anos...

 

 

Terminei o preaquecimento e me despedi de todos sem achar que tinha muita chance de passar, porque eu faria a segunda série com Ben Johnson, que na época era considerado o homem mais veloz do mundo. No final, cheguei em terceiro lugar e foi incrível: eu era o primeiro brasileiro a disputar uma final olímpica da prova mais nobre do atletismo!

 

Voltei para a pista de aquecimento e fui conversar com o Beto, que estava incrivelmente feliz com a nossa conquista. Enquanto não chegava a hora da prova, eu ia cultivando a confiança nesse elo importante entre nós, materializado naquele cantinho do estádio onde ele sempre ficava.



As relações humanas são extremamente importantes e deixam a nossa vida mais prazerosa.

E então chegou a hora da grande final. O relógio do estádio marcava 16h30, eu entrei e rapidamente olhei para o meu cantinho especial e... Adivinhem só: o Beto estava tão nervoso que não conseguiu ir até aquele ponto do estádio. Nesse momento, eu me vi sozinho dentro de uma arena com mais de 100 mil pessoas, além das 3 bilhões que estavam nos assistindo em todo o mundo. Para mim, elas não significavam nada: eu precisava ver aquele rosto que simbolizava o meu Brasil, para quem eu tinha prometido levar uma medalha.

Quando ouvi o tiro de partida, ainda fui buscar força mental e energia nos brasileiros que estavam me assistindo ali, na raia 1. Mas eu não tinha mais a mesma confiança; esse simples detalhe, de ver o meu cantinho do estádio vazio, fez a diferença. Eu tive dúvidas, e isso foi crucial para o meu desempenho – terminei a prova em quinto lugar.

 

Isso mostra como as relações humanas são extremamente importantes e deixam a nossa vida mais prazerosa. Quando, em equipe, conseguimos o gol, somos tomados de uma satisfação que enche nosso peito de orgulho – e a minha próxima história de bastidores terá muito desse sentimento.

 

Um forte abraço!

 

Tem alguma dúvida? Fique à vontade para perguntar aqui embaixo, na caixa de comentários, eu terei o maior prazer em responder.

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