Robson Caetano - Onde as águas se encontram

Onde as águas se encontram

Estive na premiação dos melhores de 2018 da Federação Internacional de Atletismo, e encontrar o passado e o futuro do meu esporte foi sensacional

22/02/2019 - por Robson Caetano



Todo rio corre pro mar, e quando se encontram, o novo se mistura com o antigo, dando novas cores e vitalidades a essa água. Foi exatamente assim que eu me senti no fim de 2018, depois de participar da premiação dos melhores atletas do ano promovida pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF).

 

Lá, o “novo”, representado pelos atletas que mais se destacaram no cenário mundial do atletismo, se encontrou com o “velho”, aqueles que, pouco a pouco, foram abrindo espaço para que aqueles da nova geração brilhassem e se tornassem os novos candidatos a ídolos do esporte.

 

 

Durante a semana de premiação, eu me peguei observando alguns ídolos das antigas e percebi que mesmo esses atletas renomados (alguns deles hoje técnicos e dirigentes) precisaram das lições deixadas por aqueles que vieram antes.

 

Fiz questão de deixar algumas palavras de agradecimento aos mais experientes, afinal, foram eles que construíram a ponte para que eu, com muito trabalho na pista e apoio fora dela, pudesse sair de uma das comunidades mais pobres do Rio de Janeiro para me tornar o atleta que eu fui. Aos mais jovens, desejei muita sorte em suas jornadas. Era o rio se encontrando com o mar.

 

Legado das lendas

 

O evento organizado pela IAAF mostrou que o passado precisa ser visto como uma base forte para sustentar o presente, assegurando um futuro campeão para qualquer pessoa.

Esse encontro de diferentes gerações me fez lembrar como os meus ídolos influenciaram as minhas escolhas

Vejam só: o atual presidente da IAAF, Sebastian Coe, foi campeão dos 800 metros nos Jogos de Moscou, em 1980. Em sua administração, ele começou um movimento que chamado Heritage Legends, que valoriza o legado de todos aqueles que engradeceram o atletismo. Não é simplesmente fazer um hall da fama. É mostrar aos jovens atletas tudo o que aconteceu – e como aconteceu – para se chegar aos dias de hoje. É valorizar o trabalho e esforço de quem chegou antes.

 

Esse encontro entre as diferentes gerações me fez lembrar (e entender) os motivos que me levaram ao atletismo. Mais do que isso, me lembrou de como os ídolos da minha época influenciaram as minhas escolhas e, claro, a herança que eles deixaram pra mim, por meio de suas palavras ou simplesmente pelas suas ações.

 

Histórias como a do herói nacional inglês Emil Voigt —dono de um estilo tão bonito que impressionava —, que durante as seletivas para os Jogos de 1908, em Londres, teve um problema no pé, mas improvisou uma prótese para se classificar e depois levar o ouro na prova de 5 milhas. Histórias como as de Adhemar Ferreira da Silva, que conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil no salto triplo, dando assim o início a um legado de saltadores nessa prova, como Nelson Prudêncio, João Carlos de Oliveira, Francisco Albino, Abcélvio Rodrigues, Anísio Souza, e eu.

 

Sim, eu comecei no atletismo me dedicando ao salto triplo, mas a paixão e o talento para as provas de velocidade me levaram para um caminho que, modéstia à parte, deixou marcas (como o até hoje recorde sul-americano dos 100 m rasos).

Apreciem como um aprendizado o que ficou no passado

Não somos um povo que dá importância ao passado. Acho fundamental conhecer o que foi feito lá atrás, para sabermos exatamente onde estamos e de que forma podemos melhorar o que foi feito.

 

Tenham uma vida longa, com saúde, com experiências modificadoras, apreciem como um aprendizado o que ficou no passado, improvisem quando necessário, mas façam com que as gerações que sucedem recebam páginas lindas de momentos transformadores.

 

Um abraço.

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