Um bate papo com quem (re)começou as atividades físicas

A história do aluno que dá aula de disposição e mostra que nunca é tarde para começar (ou recomeçar) a fazer um esporte

03/01/2020 - por Robson Caetano



Antônio Ferreira Filho é um aluno da minha turma de treinamento funcional. A rotina de exercícios dele é bem completa. Vejam só:

 

  • Em três dias da semana, ele faz caminhadas de até 45 minutos e exercícios para o braço.
  • Na quinta-feira, ele também faz um circuito de exercícios com supervisão.
  • E no sábado, faz trabalho de fortalecimento de membros inferiores na areia fofa.
  • Folgas? Só às terças e aos domingos.

Antônio Ferreira Filho tem 89 anos (já já chega aos 90), e é uma figura constante e querida nos treinamentos que eu dou lá no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro.

 

Ele não começou agora a fazer exercícios físicos. Na verdade, ele recomeçou e voltou a encontrar aquilo que eu sempre falo aqui: o prazer de viver e a qualidade de vida.

 

A sua história com o esporte é antiga. A vaidade (ele queria ficar forte) o levou para esse caminho. Depois ele foi para as lutas (chegou até a lutar com um ex-presidente) e agora está comigo.

 

E eu espero que por muito, muito tempo.

 

Robson Caetano: Antônio, como você se envolveu com o esporte?

Antônio Ferreira Filho: Desde garoto, eu comecei a aprender inglês. E eu lia muitas revistas norte-americanas que traziam aqueles caras fortões. E eu me interessava porque apareciam aqueles caras com tórax bonito. Na época, eu estava com 12 para 13 anos, e disse para mim mesmo: quero ficar igual a esses caras.

 

RC:  E o que você fez para ficar igual?

AF: Nessa época – não sei se você se lembra ou se é da sua geração – tinha um cara chamado Charles Atlas [fisiculturista italiano que fez sucesso entre os anos 1940 e 1970]. Eu perguntei ao meu pai: “O senhor quer que eu fique forte? Então, o senhor não quer comprar pra mim o curso do Charles Atlas?” [O curso reunia apostilas com métodos de exercício e era anunciado em revistas em quadrinhos]. Nesse tempo, o dólar custava 18 cruzeiros, então papai disse: “neste mês não, mas no mês que vem eu vou trazer pra você”. Papai, então, comprou os dólares e mandou para os Estados Unidos, para a aquisição do curso. Foi quando chegou aos Correios um pacotão cheio de fôlderes. O Charles Atlas tinha um físico que hoje em dia qualquer garoto tem, mas ele era o fortão da época.

 

RC: Você, então, feliz da vida, começou a fazer. Mas era tudo sozinho?

AF: Eu comecei a fazer sozinho. Eu me colocava diante do espelho da minha casa. Aliás, é por isso que eu não posso ver um espelho que já fico fazendo pose. Eu sou um tarado por espelho (risos).

 

"A minha vida se resume a isso: só esporte"

Seu Antônio

RC: E como era o curso do seu ídolo na época?

AF: O curso consistia em treinamento de peso e realizar as poses diante de um espelho. Cada lição levava um mês, mais ou menos, para completar.

 

RC: E quantas lições eram?

AF: Eram 30 lições. Eu sempre fui muito hiperativo, então já pulava de lição no meio. Ao fim de cada lição, aparecia um sujeito que tinha feito o curso dele, e estava todo fortão também. Eu dizia: “pô, eu quero ser assim”. Foi aí que eu me obriguei a realizar todas as etapas com empenho. A partir daí fiquei com o corpo bonito, surgiu a oportunidade de me tornar modelo. E depois surgiu a chance de me tornar boxeador. Me diziam que eu tinha a mão muito grande, e realmente eu tenho as mãos grandes. Aí eu comecei a brincar com o boxe.

 

RC: Você, então, migrou para a luta?

AF: Isso mesmo. E além do boxe, o karatê estava começando a fazer sucesso. Eu estava com meus 20 anos e uns quebradinhos, e era época da inauguração de Brasília, cidade em que eu fui trabalhar porque era — ainda sou né, mas aposentado — funcionário da Câmara Federal. E lá eu comecei a brincar com o boxe, mas só fazia com gente da minha confiança. Eu dizia: “Olha, não vai me acertar o nariz, hem? Não vai quebrar, hem?”.

quinto texto

RC: Então, você é um cara vaidoso, né?

AF: Demais. Meu pai dizia que eu era orgulhoso, e eu dizia: “Não, papai. Eu sou vaidoso”. Eu o corrigia e dizia pra ele: “Nunca diga que eu sou orgulhoso, eu sou vaidoso!”.

 

RC:  E a história com a família Gracie, como surgiu?

AF: Papai era ourives e trabalhava para a família Gracie [criadores do jiu-jitsu brasileiro], e eles eram muito amigos dele. E meu pai disse: “Você vai aprender jiu-jitsu”. Eu não sabia o que era, e quando vi, percebi que não era meu negócio.

RC: Então você não gosta muito desta arte marcial?

AF: Não, Robson. Meu negócio é chegar e resolver logo, acabar com a briga logo de uma vez.

 

RC: Foi nessa época que você ficou um tempo sem poder fazer atividade física? Por quê?

AF: Fiquei sem fazer nada porque eu não sabia direito o que queria. “O que eu vou fazer?”, me perguntava. E não tinha ninguém que me orientasse. O hiato foi bem grande. Eu até cheguei a comentar com minha mulher, que na época era minha namorada: “Ilka, meu braço está afinando”. E ela dizia: “Deixa de ser vaidoso, não tá afinando nada!”.

 

RC: E o que você fez?

AF: Eu morava em Brasília e lá conheci um japonês chamado Ketzuma Higashino, que me ensinou a lutar karatê. Foi aí que eu disse para mim “é isso que eu quero para mim”.

 

RC: Você me disse que fez karatê com o ex-presidente Fernando Collor. Que história é essa?

AF: A gente treinava juntos, porque eu tinha carro e ele não. O pai dele [Arnon Afonso de Melo, ex-senador da República] era durão e não dava o carro para ele usar. Quando eu o conheci, eu estava no começo ainda, era faixa branca, enquanto o Collor já era faixa roxa.

 

"Eu não consigo mais viver sem o esporte.'

Seu Antônio

RC: Desse nosso papo aqui, eu estou entendendo que você acabou fazendo esporte por uma questão de vaidade. É isso?

AF: Isso, a minha vida se resume a isso: só esporte. Eu sou vaidoso ao extremo. Meus netos ainda dizem: “Nossa, vô, como o senhor é vaidoso!”. Pô, só agora eles perceberam isso?

 

RC: E como foi que surgiu o interesse pela caminhada e pelo treinamento funcional comigo?

AF: Você estava dando treinamento aqui na calçada da praia [do Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro], e eu passava por aqui caminhando todos os dias. E, em um dia desses, eu estava com a minha filha Katia, vi você com seus alunos e me perguntei: “Que negócio é esse de ficar correndo pra lá e pra cá?”. Eu não sabia o que era isso.

Então paramos e perguntamos, e você abriu um sorriso, me deu um abraço, que fez eu me senti muito importante, e começamos a fazer o treinamento. E, olha, eu sou outra pessoa agora.

 

RC: Bom saber disso, Antônio. Um dia você me disse que os seus médicos o elogiaram, é verdade?

AF: Pois é, meu cardiologista me disse que estou ótimo. Já fiz cirurgia do coração, mas ele ficou ainda mais feliz quando eu disse que você ajudou a recuperar a minha autoestima.

 

RC: Quão importante é para você realizar atividade física?

AF:  Ah Robson, eu já sou vaidoso e quando falo para os meus amigos que treino com você, todo mundo fica admirado. E logo perguntam: “Mas você aguenta?”. Eu sempre falo da sua paciência e do seu carinho, comigo e com todos os alunos. Robson, eu não consigo mais viver sem isso. Apesar dos puxões de orelha que você me dá, de não facilitar em nada pra mim, eu sou feliz aqui com você, e olha que a atividade é puxada.

 

**

 

E aí, gostaram do papo?

 

Conseguiram ver como a qualidade de vida está aflorando nele?

 

O que você está esperando para ser tão alto-astral quanto o Antônio?

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